Tuesday, November 07, 2006

Olhar, ver, sentir

Olhar, ver, sentir: o sentido e significado ...

“A porta é o que escolhe e não o homem” Jorge Luis Borges

As disciplinas de teoria, história da arquitetura e estética apresentam e conceituam obras de arte e arquitetura, admitidas por seu valor histórico para a cultura ou para o campo da arquitetura especificamente. Dá-se valor à beleza, à destreza, ao virtuoso, ao novo, ao original, ao estranho, ao revolucionário, ao memorável, ao primordial, ao que se destaca do ordinário, ao que nos desperta da sonolência, ao que dá sentido à existência e ao que nos guia na vida cultural.
O valor uma obra de arquitetura é evidenciado em sua forma visível, tangível, sensível (na memória e afetividade também, sobretudo coletiva) que tem relação com a experiência sensível com esta obra, através da percepção e da representação. “A forma dá ser à coisa” (DOLLÉ). É sempre algo dado a perceber, sentir, pensar (ARGAN, 1993), um enunciado ou efeito de sentido dado à percepção, ao sentimento e à razão.
Os sentidos, significados e conceitos atribuídos às obras resultam de diálogos com os outros, a crítica. A ação inicial da crítica delimita o fato, perscruta sua inteligência; constata a presença da obra, descrevendo-a e captando seu modo de visar. A forma das coisas apresentam lacunas e pistas através das quais os enunciados se infiltram, interagindo com o objeto visível. O olhar generoso respeita as coisas pelo que são, tenta apreender sua lógica interna diz Michel Mafessoli, como no poema do Arnaldo Antunes:
As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido. As coisas não têm paz. (Arnaldo Antunes, As coisas)

Os critérios para "critica" uma obra de arquitetura ou de arte:
¨ trecho da entrevista da crítica de arte Lígia Canongía “ tudo na lata” alunos da turma de estética 1999
"Nós: Que critério você usa para avaliar uma obra? Eu uso do meu conhecimento, que procuro ampliar cada vez mais e a minha leitura, que é mais da área da história da arte, da crítica e teoria da arte especificamente. Então, eu uso da minha bagagem, sensibilidade, da faculdade de fazer associações e ter insights, capacidades intrínsecas do ser humano. Acho que é necessário ter um olho sensível, mas também um olho educado, que é um aprendizado semelhante ao de qualquer conhecimento. É preciso aprender.
Nós: Então só é capaz de julgar uma obra quem tem bagagem e conhecimento teórico? Para julgar sim, porque é preciso ter critérios para esse julgamento. O conhecimento aparelha melhor para emitir algum juízo crítico e não ser irresponsável, é preciso se apoiar em algumas coisas que possam sustentar o julgamento."

De acordo com Fayga Ostrower, o mundo de nossa sensibilidade é um mundo de diálogos com as formas das matérias, físicas ou psíquicas. Nas várias linguagens da arte, o conteúdo expressivo da obras é articulado de modo formal, nos termos característicos de cada linguagem, os valores e as vivências dos artistas são traduzidos em formas espaciais. Como substrato e última referência encontramos formas e imagens no espaço.
Os sentidos são fundamentais em nossa apreensão do espaço diz Fayga Ostrower. A orientação no espaço que nos proporciona o conhecimento de distâncias, proximidades e intervalos, magnitudes, profundidades e superfícies, é incorporada como referencial primeiro em nossa auto-percepção e concomitantemente, nas formas simbólicas que criamos.
A noção de forma é modo de ser, feitio, aparência, configuração, disposição. A idéia de forma sempre abrange um princípio organizador, estruturador, uma ordenação que se torna manifesta. Lembramos que para que se perceba uma forma, quer de objetos, de acontecimentos ou de processos, se faz delimitações. Estas podem ser de ordem física e mental, de acordo com a natureza do fenômeno. Mas, são as referências da percepção. As delimitações segregam algum fenômeno da totalidade do acontecer, destacando-o como um contexto próprio, uma forma, um conteúdo expressivo. Tudo que se torna significativo é avaliado através de referências (OSTROWER). O processo criativo necessita de um referencial para exercitar a linguagem. O mesmo se dá com a análise de uma obra.
Estabelecer um referencial é essencial na percepção e análise de uma obra de arquitetura.
Argan nos diz que este referencial é construído na história, que vai contextualizar a obra no tempo e no espaço, buscar seus motivos, seus fundamentos sociais, culturais, econômicos e tecnológicos, e ainda, seu valor permanente. Flávio Motta diz que é preciso um olho coletivo (dos outros e de muitos) para construir o significado de uma obra (MOTTA, 1973).
A obra de arte é uma obra que nós fazemos para só depois sabermos mais completamente, como fizemos (...) com o tempo ela mostrará aquilo que no momento não mostra (...) Isto é para dizer que existe um olho na história.
Merleau Ponty (1999) diz que é nos outros que a expressão adquire relevo e se torna verdadeiramente significação. A história desdobra a obra no tempo, no espaço, em discurso, em outras obras, na sua sobrevivência no espaço e na memória enquanto obra.
A história, como uma produção social de leituras cumulativas, apresenta a obra de arte como um modo de ver a vida social (ethos), sempre renovável de acordo com os instrumentos e as necessidades do presente.
A história, segundo Flávio Motta, é “conseqüência da superposição dos sistemas de relação e os novos relacionamentos dos meios de produção”, que permite situar o trabalho artístico de modo não cristalizado, como trabalho criador, “que intensifica e aprofunda as relações entre os homens”.
Fazer história é fazer relações entre tempos, entre coisas e lugares; relacionar obras entre si, comparar e discernir procedimentos artísticos, técnicos, de composição, classificar e hierarquizar em estilos e linguagens.
Cada historiador tem seus próprios referenciais teóricos, condiciona-se ao desenvolvimento de sua pesquisa suas linhas de pensamento e ideologia política. Ainda o historiador ou crítico observa restrições quanto ao que pode dizer (tanto pode ser relativo à censura quanto à necessidade se fazer compreendido), cultiva seu gosto pessoal, tem seu estilo. Do mesmo modo, os “paradigmas” da ciência e da arte têm limites condicionados pelos seus recortes, corpus, objetos, contexto histórico, etc..
Diz-se que a essência do conhecimento histórico está ligada às maneiras como se decide sobre aquilo de que haverá história. Porém ficam de fora, os incompreendidos no seu tempo (Van Gogh, Rimbaud, Artaud), os censurados (construtivismo russo, o cabaret), os out-siders, os marginais, mas também, os excluídos (artistas fora do circuito da arte, arquitetos a margem do mercado, fora do mundo star sistem ou fashion).
A seleção dos objetos artísticos e dos conceitos veiculados constitui um conhecimento mais interpretativo que factual mais seletivo que global, no sentido de expressar o “espírito de um tempo” ou um modo de ser datado. No final das contas, o que vale é: menos lembrar os fatos do que reescrever a história (Jacques Lacan, O seminário 1), e construir seu próprio ponto de vista na correspondência com o objeto.
Reescrever a história de uma obra, descobrir o que esta obra visa, tentar captar seu enunciado.
A enunciação é a colocação da língua em funcionamento por um ato individual de utilização, enunciado é um objeto que individualiza um sujeito no seu campo de intervenção. “A enunciação típica da arte de expressão se dá no entrecruzar entre os espaços in e out da obra, que deixam as pistas que solicitam imaginação do observador”, transformando sua condição passiva em ativa, desvendando os indícios e rastros deixados pelo autor da obra (PENUELLA, 1990).
Processo de leitura (passos provisórios):
Na leitura vai se investigar como a obra busca seu significado, através de suas formas, os caminhos iniciais da leitura são indicados por sua configuração espacial e formal.
Implica em verificar as relações com o contexto histórico (sociedade, cultura, arquitetura, arte), contexto físico (sítio); tecnologia; programa (função, usos, sociabilidade); legislação, normas construtivas (político, econômico e disciplinar); com a pesquisa pessoal do arquiteto (processo projetual, partido, composição).
Por passo e por partes, vai se considerar na obra em seu aspecto plástico, espacial, a morfologia, a topologia, as tipologias espaciais, construtivas, funcionais, a composição, a linguagem, o estilo, os símbolos, as inovações; os valores que quer expressar, os efeitos sensíveis e cognitivos que quer causar, o que quer dizer...
Em detalhes, vai se investigar como é a composição da obra (plástica, construção), que escolhas fez o arquiteto no processo de concepção do projeto, sua reflexão sobre o fazer, os meios e a sociabilidade; vai se verificar como são trabalhados a técnica construtiva, os materiais e o conforto dos ambientes; como dispõe os elementos, posiciona e relaciona partes, elementos e espaços entre si e no todo; como se coloca na cidade ou natureza, como se relaciona com entorno imediato e o território, o que visava no uso do espaço privado, público, coletivo e individual e a recepção efetivada concretamente. Como articula a estrutura, vedações, coberturas, espaços, luz, percursos; como relaciona os planos, aberturas e fechamentos; como se expressa plasticamente nos vazios, vãos, nos volumes, nas superfícies, nos elementos construtivos e decorativos pela cor, texturas, ritmos, escala, materialidade. O que torna visível o que esconde....
A partir dessas considerações pode-se começar a interpretar a obra. A percepção sensível vai dizer, a intuição vai soprar por onde começar, “o que em mim sente está pensando” diz Fernando Pessoa. As referências teóricas e os critérios a serem usados para analisar a obra e atribuir-lhe um valor, a obra mesma é que vai suscitar....
“segundo o veredito nitzscheano, você não conhecerá nada por conceitos se você não os tiver de início criado, isto é, construído numa intuição que lhes é própria: um campo, um plano, um solo, que não se confunde com eles, mas abriga seus germes e os personagens que os cultivam” (Deleuze & Guattari, O que é a filosofia?)
Bibliografia

ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1981
ARGAN, Giulio Carlo. Guia de História da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1993
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a filosofia? . Rio de Janeiro: Editora 34, 1992
DOLLÉ, Jean-Paul. Longe do lugar, fora do Tempo. www.vitruvius.com.br
MAFESSOLI, Michel. No fundo das Aparências. Petrópolis: Vozes, 1999
MERLEAU PONTY. Signos. São Paulo: Martins Fontes, 1999
MOTTA, Flávio. Textos Informes, São Paulo: FAUUSP, 1973.
OSTROWER, Fayga. Acasos e criação artística. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1990
PENUELLA, José. Notas do Curso “Leituras do Pictórico”, sobre a enunciação de uma obra. São Paulo: PUC/SP, 1990
PEREIRA, Michele; CUNHA, Érica; HENRIQUES, Rodrigo Paes; GOMES, Valéria e MATTEDI, Thaíza. Entrevista com Lígia Canongía: “ tudo na lata” na Disciplina Estética e Arquitetura. DAU-UFES, 1999

1 comment:

EDU ROCHA said...

ola,
clara.
achei por acaso um texto seu na internet.
sou arquiteto, pesquisador e professor. no momento desenvolvo tese de doutorado em arquitetura na ufrgs, sob a temática: Arquiteturas do Abandono, e venho me utilizando de cartografias e esquizoanálises.
Gostaria de manter contato com voce para trocar algumas idéias. ok.
http://arquiteturasdoabandono.blogspot.com
amigodudu@pop.com.br
Eduardo Rocha