Wednesday, November 03, 2010

A poética do espaço - Gaston de Bachelard

Sobre as imagens (em texto cortado):
Bachelard pede que captemos a realidade específica da imagem.
A comunicabilidade de imagem singular é um fato de grande significação ontológica;
Em sua simplicidade a imagem não tem necessidade de um saber.
Tudo que é especificamente humano no homem é logos. Não chegamos a meditar numa região que estaria antes da linguagem.
Nada prepara uma imagem poética; nem a cultura, no modo literário; nem a percepção no modo psicológico.
Superar os problemas da descrição - seja ela subjetiva seja ela objetiva – quer se refira a fatos ou impressões, busca atingir as virtudes primárias, inerente a função original do habitar.
Casa canto, primeiro universo
Casa, corpo de imagens, razão ou ilusão de estabilidade.
A casa, do porão ao sótão, o sentido da cabana
Dois temas principais de ligação da psicologia da casa:
Um ser vertical, nos leva a consciência da verticalidade – o sótão e o porão;
Um ser concentrado; nos leva a consciência da centralidade.
Em Paris não existem casas. Em caixas sobrepostas vivem os habitantes da grande cidade. Nosso quarto parisiense entre suas quatro paredes é uma espécie de lugar geométrico, um buraco convencional que mobiliamos com bibelôs e armários dentro de um armário ver Bachelard. p. 44.

Gustave Caillebotte. Rue de Paris, temps de pluie; Intersection de la Rue de Turin et de la Rue de Moscou . 1877

A casa já não conhece os dramas do universo segundo Bachelard.


O problema da arquitetura que Lina Bo Bardi propõe na casa do Morumbí é a criação de um ambiente “fisicamente abrigado”, que ao mesmo tempo participasse daquilo “que há de poético e ético, mesmo numa tempestade”. “Esta residência representa uma tentativa de comunhão entre a natureza e a ordem natural da coisas, opondo aos elementos naturais o menor número de meios de defesa”.

A casa e o universo
Segundo Bachelard, a casa isolada vem lhe dar imagens fortes, conselhos de resistência. O problema não é de ser, é um problema de energia. Comunhão dinâmica entre o homem e a casa, na rivalidade dinâmica entre a casa e o universo, estamos longe de qualquer referencia às simples formas geométricas. A casa vivida não é uma caixa inerte. O espaço habitado transcende o espaço geométrico. Uma casa cósmica existe potencialmente em todo sonho de casa.
“Toda arquitetura é uma expressão da saudade do lar” Greg Lynn
Estranha situação os espaços amados se desdobram, nos transportam a outros lugares.
Louise Bourgeois, Red Room (Parents), 1994
Detail. Mixed media, 247.6 x 426.7 x 424.2 cm
Private collection
Photo Peter Bellamy
© Adagp, Paris 2008
 

A

Friday, June 04, 2010

A departamentalização da casa

Algumas especulações sobre a organização da divisão dos cômodos de uma casa através dos setores íntimos, social e de serviço que caracteriza a tripartição burguesa européia do Século XIX. A base incial dessas afirmação advém do capitulo "Maneiras de Morar" por Michelle Perrot, em "A história da vida Privada n. 4". Observações que foram feitas para orientar Graziela Dadalto quando orientava seu trabalho de graduação final.

No livro “Vergonha e decoro na vida cotidiana da metrópole” – que é organizado por José de Sousa Martins – muitos autores alegam que a “departamentalização da casa” (banheiro, cozinha, quartos, sala) e a criação de corredores de passagem que permitem acesso aos diversos cômodos sem transitar pelos espaços privados, reafirmam o papel da intimidade e estabelecem um uso estrito para cada espaço, evocando ordem. A demarcação e a caracterização dos espaços estavam ligadas ao decoro . Este se relacionava (e se relaciona) ao comportamento adequado em relação às formas de interação social, cuidados com o corpo e controle das funções orgânicas e fisiológicas, às quais poderia gerar constrangimento, nojo ou vergonha. Tratava-se de uma demarcação em relação ao que deve ser exposto e ao que deve ser escondido publicamente. Estes procedimentos começaram na corte absolutista que queria se diferenciar da corte medieval. Tanto que bom comportamento passa a ser denominado de “cortesia”. A partir da corte absolutista se propôs paulatinamente o comedimento e o controle em relação a certas funções orgânicas em público. Os autores indicam que o nojo, o asco, as repugnâncias foram socialmente construídas. O “padrão de mundo civilizado” de refinamento de conduta foi um processo social que se inicia antes da era burguesa, que, contudo, radicaliza estes hábitos e protocolos. O racionalismo, o iluminismo, a medicalização da vida, o sanitarismo e o modernismo também colaboram neste processo.
A civilidade impõe certo distanciamento do outro e os cômodos da casa expressam gradações deste distanciamento. Cada local tem suas regras de conduta. A sala é o lugar mais público, pode ser a fachada da casa ou funcionar como um bastidor. Geralmente é o lugar mais arrumado e decorado. Num salão burguês disse Walter Benjamin: “o ‘interior’ obriga o habitante a adquirir o máximo possível de hábitos, que se ajustem melhor a esse interior que a ele próprio.” E sobre o quarto Benjamin escreve que:
“Se entrarmos num quarto burguês dos anos oitenta [1880], apesar de todo o “aconchego” que ele irradia, talvez a impressão mais forte que ele produz se exprima na frase: “Não temos nada a fazer ali porque não há nesse espaço um único ponto em que seu habitante não tivesse deixado seus vestígios. Esses vestígios são bibelôs sobre prateleiras, as franjas ao pé das poltronas, as cortinas transparentes atrás das janelas. O guarda-fogo diante da lareira.”
O quarto se estabelece como o local da intimidade, é o espaço mais privado da casa. A cozinha e o banheiro foram por muito tempo lugares da rejeição .
“Nas casas burguesas de Paris, por exemplo, a cozinha ficava em um cômodo que dava para o pátio, mas que não tinha acesso direto aos cômodos principais. Nas casas térreas inglesas, a cozinha, adjacente aos alojamentos dos criados, continuou situada no porão até o século XIX. Na maioria dos appartements, a “cozinha” não passava de um caldeirão pendurado na lareira. (RYBCZYNSKI, 1996, p.83)”
O surgimento da intimidade na casa propiciou mudanças no arranjo doméstico, funções mais específicas foram dadas aos cômodos como a cozinha e os quartos. Os filhos mais velhos já não dormiam mais com os pais. Criados e empregados tinham seus próprios quartos assim como os demais membros da família, mas todos os moradores da casa ainda faziam as refeições em conjunto (á mesma mesa). Este senso de intimidade doméstica que estava surgindo era o caminho para a casa de família (Graziela Dadalto).
“Domesticidade, privacidade, conforto, o conceito do lar e da família: estas são, literalmente, as primeiras conquistas da Era Burguesa. O Interior Burguês.” (RYBCZYNSKI, 1996, p.63). Na verdade, o conceito de doméstico, de esfera privada é anterior a era burguesa, derivada do tempo dos romanos de domus. essa palavra domus (singular e plural) deriva de dominus, nome por que eram designados os chefes das famílias patrícias.

A instalação de uma comunidade em um território implicava em consagrá-lo. De certa forma o espaço doméstico também apresentava alguma consagração ao sagrado, para os Romanos Janu e Vesta, guardavam as portas e o lar, enquanto que o Deus Lares protegia o campo e a casa;

“O domus é um espaço e um tempo comuns”, um dos aspectos que constitui o lugar. Um espaço-tempo doméstico é compartilhado, é “onde cada um encontra seu lugar e seu nome” (PEIXOTO, 1996). A cidade, a esfera pública, apresenta outra configuração do espaço e do tempo.
O espaço doméstico é onde se ‘vive com’ (convive), se come na mesma mesa. Para os gregos antigos, o conviver ocorria na oiko (casa) dirigida por regras, normas da casa, do lugar nomia. Oikós (de onde deriva a palavra economia) significa a “arte de administrar a casa”, as propriedades de terra, os recursos materiais, e também as relações matrimoniais, paternas, maternas (José Lira).
No entanto, a semântica que domesticidade adquire advêm da era burguesa. Quer dizer, a domesticidade é tida como um conjunto de emoções, relacionada à família, à intimidade, à devoção ao lar, assim como a uma sensação da casa como incorporadora.
A organização da divisão dos cômodos de uma casa através dos setores íntimos, social e de serviço, caracteriza a tripartição burguesa européia do Século XIX.

Referencias:
ARRIVABENE, Graziela Dadalto. A transformação no espaço da cozinha em residências unifamiliares. 2009. Trabalho de Conclusão de Curso. (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade Federal do Espírito Santo. Orientador: Clara Luiza Miranda.
BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza. In. Obras escolhidas (1) Magia e técnica, arte e política. Ed. Brasiliense. São Paulo.
LIRA, José tavares Correia de. Sobre o conceito de casa ou como ver o objeto por excelência do arquiteto sem sair de casa. São Paulo. Revista Caramelo, FAUUSP, N. 5. s. d.
MARTINS, José de Sousa. Introdução. In Vergonha e decoro na vida cotidiana da metrópole. HUCITEC, São Paulo, 1999, pp 9-15.
PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens urbanas. São Paulo: SENAC: Marca D’Água, 1996.
PERROT. Maneiras de Morar. in A história da vida Privada n. 4.
RYBCZYNSKI, Witold. Casa: Pequena História de Uma Idéia. Ed. Record,
SANTOS, Christiane Sousa do & AGUIEIROS, Gabriela H. O corpo e a intimidade: os espaços do constrangimentos. In MARTINS, José de Sousa. Vergonha e decoro na vida cotidiana da metrópole. HUCITEC, São Paulo, 1999, pp 105-122

Tuesday, March 30, 2010

Sunday, March 28, 2010

"uma casa onde se pode viver”


Toyo Ito em Arquitetura dos Limites Difusos reflete sobre a distância entre os espaços que conforma as experiências dos seres humanos e o espaço construído por um arquiteto; o primeiro é “uma casa onde se pode viver” e o segundo é uma “casa obra de um arquiteto”. Os argumentos desta “autocrítica”, que se reveste de grande importância pois se trata do espaço da vida cotidiana, advém do filósofo Koji Taki: “Por que apareceu esta diferença? (...) O espaço projetado pelo arquiteto não é resultado do tempo vivido por alguém; a casa como morada não se construiu a priori para as coisas que residem no futuro. Estas revelam os aspectos espaciais do lugar habitável como um conceito lírico codificado. Entre as contradições e as relações interativas destes aspectos surgem nossas reflexões sobre o espaço habitável. As diversidades lingüísticas do espaço habitável estão relacionadas. (...). A criação do arquiteto aparece de modo que extrai aquilo essencial do conceito de arquitetura que passa desapercebido mas além do caráter vivente da casa. Ao dispor o modo como os demais vêem as coisas, se desvelam e se expressam os limites do espaço que um indivíduo pode visualizar no presente”.(KOJI apud ITO, 2006)
Toyo Ito deduz que há uma defasagem entre o corpo como “experiência vivida” e o “outro corpo”, que aspira a tal linguagem lírica (conotativa, subjetiva, pessoal), um corpo criado mediante a consciência ampliada da tecnologia moderna.

ITO, Toyo. Arquitetura dois limites difusos. Barcelona: Gustavo Gili, 2006
Trabalho da Laura Cantarelli In: Verb Connection, Actar, Barcelona, 2004.

Sunday, March 21, 2010




Nomades béberes e Moradias na caverna na Capadócia Turquia no livro "Cobijo"

"Morar de outras maneiras"

Mediações históricas e sociais
Partimos da idéia de que tudo o que diz respeito à produção, ao uso e aos significados da moradia é fruto de processos histórico-sociais. Nada do que a ela se relaciona agora pode, sem mais, ser dito arcaico, natural, arquetípico, essencial – enfim, ahistórico. Os homens da caverna dormiam, mas não como nós; estima-se que dormiam pelo menos 14 horas por dia e de modo intermitente. Os nômades se abrigam, mas o fazem sem construções permanentes em locais fixos. Os índios Maxacali tem um certo senso de privacidade, mas relacionam-no à mata e não à casa, que para eles é lugar público. Há inúmeros exemplos de diferentes épocas, regiões e culturas para contradizer cada um dos pretensos sentidos universais da moradia.
Poder-se-ia objetar que dormir, comer ou buscar abrigo seriam, afinal, atos comuns a toda a humanidade, passíveis de alterações históricas apenas quanto às suas formas de manifestação, mas não em sua essência. Porém, cabe contrapor que não é possível separar tais supostas essências (sejam de ordem biológica ou de alguma ordem imaterial) daquilo em que se transformaram ao longo da história da sociedade. O filósofo crítico Theodor Adorno faz uma constatação incisiva nesse sentido: "A fome, entendida como categoria da natureza, pode ser saciada com gafanhotos e bolo de pernilongos. Para saciar a fome concreta dos civilizados é preciso que tenham algo para comer de que não sintam nojo, e no nojo e em seu contrário reflete-se toda a história." Até a fome e o nojo, de todos os sentimentos talvez os menos suscetíveis ao controle do intelecto, são histórica e socialmente mediados. O que as pessoas reais sentem não é fome em geral, mas uma fome tão específica que certos alimentos lhe servem e outros não (e por vezes, essa distinção é mais determinante do que o medo da morte).
Analogamente, as pessoas reais não sentem necessidade ancestral de abrigo, nem desejo genérico de moradia. Elas têm necessidades e desejos concretos, moldados pela sua situação social e histórica, tanto naquilo que uma pessoa quer, quanto naquilo que ela rechaça. Não existe "um modo intemporal de construir" que "tem milhares de anos de antigüidade e é hoje o mesmo de sempre" . Não é verdade que "a casa sempre foi o indispensável e primeiro instrumento que ele [o homem] se forjou" ou que "todos os homens têm as mesmas necessidades" . Tampouco a moradia se rege por uma "dimensão existencial [que] não é determinada pelas condições sócio-econômicas" e cujos "significados transcendem a situação histórica" . O fato de os procedimentos mais triviais de sobrevivência social nas cidades brasileiras da atualidade exigirem o comprovante de residência talvez diga mais sobre a importância e as funções da moradia nesta sociedade do que o diz o conceito de ser-no-mundo. Morar não é uma operação abstrata; morar é sempre morar desta ou daquela maneira e numa sociedade, mesmo que se more deliberadamente afastado dela. Morar também não é uma operação primitiva, primordial; nada mais inglês e setecentista do que o modo como Robinson Crusoe organiza o espaço de sua ilha e seus afazeres cotidianos. Morar é, em suma, uma prática que se dá na história e no espaço sociais. E da mesma maneira que as moradias e suas características se produziram historicamente, elas podem se modificar ou desaparecer.

O texto inteiro está neste site: http://www.mom.arq.ufmg.br/
ou em:
KAPP, Silke; BALTAZAR DOS SANTOS, Ana Paula; VELLOSO, Rita de Cássia Lucena. Morar de Outras Maneiras: Pontos de Partida para uma Investigação da Produção Habitacional. Topos Revista de Arquitetura e Urbanismo, Belo Horizonte, v. 4, p. 34-42, 2006.

Thursday, March 11, 2010

A axiologia do “lugar”

“Não há espaço que não seja arquitetônico”.

O espaço funciona por referência extrínseca- conceito, abstração- para ser precisado necessita de adjetivo. O território funciona por referência intrínseca – prática, regras, condutas. O lugar funcionaliza o mundo.
"AXIOLOGIA (in. Axiology, fr. Axiologie, ai. Axiologie, it. Axiologid). A "teoria dos valores" ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes.

Entre as teorias sobre o espaço estão: o grupo das concepções do espaço e as teorias do espaço da cidade ou do urbano. A problemática do urbano é indissociável da interatividade seja doméstica e privada seja coletiva e/ou pública. No quadro destes estudos há aqueles que se debruçam especificamente sobre a lógica e a axiologia do lugar.
O lugar é algo que acompanha o homem, Jean François Lyotard chega a dizer que cada um carrega o seu consigo. Por outro lado, para a definição da estrutura do lugar há uma infinidade de teorias opostas desde o distante mundo cultural grego diz Josep Muntanola Thornberg.
Como indicam Aristóteles e Hegel, “o lugar é sempre lugar de algo ou de alguém”. O que interessa expor são as inter-relações entre este algo ou alguém que habita (ou tem relações com) o lugar e descrever o próprio lugar. Além disso, a capacidade de construir o lugar distingue o homem, ou melhor, a capacidade de “espaciar-se em um espaço” como diz Heidegger. Para ele, a comunicação lingüística no homem está subordinada ao seu "ser no mundo" que é espacial.
A arquitetura organiza os lugares para viver mediante a transformação da matéria física. Esta transformação tem a ver com este "espaciar-se em um espaço" heideggeriano.
Pode-se discriminar um grupo de ciências que se ocupam do lugar, tendo as via de análise predominante: operativa, figurativa, semiótica, e ainda tendo como objeto de análise a pessoa humana, a sociedade, o meio ambiente arquitetura e urbanismo, a tecnologia são apenas algumas das disciplinas.
Josep Muntanola Thornberg distingue autores que tratam a lógica do lugar, dentre estes estão Aristóteles e Hegel. Para Aristóteles o lugar não é um vazio espacial desassociado daquilo que preenche o lugar. Ao contrário é um "intervalo corporal" (Aristóteles) que pode ser ocupado sucessivamente por diferentes corpos físicos e que está criado pelo próprio lugar em si mesmo.
A noção de lugar de Aristóteles é muito "moderna", diz Thornberg pois está articulada à noção de limite. Donde existe uma "constância vicinal" entre o continente e o conteúdo. Esta noção de lugar se identifica com a noção de contato como limite dos corpos em afinidade, determinando-se num equilíbrio variável, e cada vez mais difuso em relação à medida que nos afastamos da escala humana
Para Hegel, lugar é tempo no espaço. Além disso, entre espaço e tempo distingue duas uniões: o movimento e a matéria. A primeira é o movimento, passagens entre espaço e tempo e espaço, e também pode ser definida como mudança de lugar. La segunda unia- espacio-temporal é a matéria, é a existente união do espaço e do tempo, por uma parte, e do lugar e do movimento, por outra parte (ver Thonemberg p. 19).
Josep Muntanola Thornberg explica que a abordagem sobre a lógica do lugar realista, física e geométrica é contraposta pela axiologia do lugar (valores espaciais). Thonemberg destaca neste contexto Gaston de Bachelard.
“Tornar geométrica a representação, isto é, delinear os fenômenos e ordenar em série os acontecimentos decisivos de uma experiência, eis a tarefa primordial em que se firma o espírito científico. De fato, é desse modo que se chega à quantidade representada, a meio caminho entre o concreto e o abstrato, numa zona intermédia em que o espírito busca conciliar matemática e experiência, leis e fatos. Essa tarefa de geometrização que muitas vezes pareceu realizada — seja após o sucesso do cartesianismo, seja após o sucesso da mecânica newtoniana, seja com a óptica de Fresnel — acaba sempre por revelar-se insuficiente. Mais cedo ou mais tarde, na maioria dos domínios, é forçoso constatar que essa primeira representação geométrica, fundada num realismo ingênuo das propriedades espaciais, implica ligações mais ocultas, leis topológicas menos nitidamente solidárias com as relações métricas imediatamente aparentes, em resumo, vínculos essenciais mais profundos do que os que se costuma encontrar na representação geométrica. Sente-se pouco a pouco a necessidade de trabalhar sob o espaço, no nível das relações essenciais que sustentam tanto o espaço quanto os fenômenos. O pensamento científico é então levado para "construções" mais metafóricas que reais, para "espaços de configuração", dos quais o espaço sensível não passa, no fundo, de um pobre exemplo. (BACHELARD, 1995).
Gaston de Bachelard incentiva a ruptura com o racionalismo da ciência para ele deve-se esquecer este saber, se a proposta é estudar os problemas colocados pela imaginação poética.
“Só a fenomenologia, isto é, o levar em conta a partida da imagem numa consciência individual – pode ajudar-nos a restituir a subjetividade das imagens e a medir a amplitude, a força, o sentido da transubjetividade da imagem”.
Bachelard faz distinção entre imagem e conceito. A imagem é vivida, o conceito é construído, são termos que não admitem síntese. Estão em dois pólos divergentes da vida, intelecto e imaginação. O conceito é um centro de significação isolado. Já na imagem tem autonomia em relação aos seus objetos. A imagem ultrapassa sua significação: “A imagem poética é essencialmente variacional. Ela não é como o conceito, constitutiva” (BACHELARD, 1996). A imagem possui uma existência que lhe é própria, singular, é produto da criação, ela não é derivada da experiência.
Christian Norberg-Schulz, no quadro da fenomenologia heideggeriana, parte do mundo-da-vida cotidiana que consiste de “fenômenos concretos” e os menos tangíveis como sentimentos. Assim, interessado nas qualidades complexas dos lugares abre mão de conceitos analíticos científicos, aponta como Bachelard a poesia, como fonte de informação sobre os lugares. Interessa-se pela estrutura do lugar.

referências
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes. 1995
BACHELARD, Gaston. O novo espírito científico. Lisboa: Edições 70, 1996
NORBERG-SCHULZ, Christian. O fenômeno do lugar. In: NESBITT, Kate (org.). Uma nova agenda para a. arquitetura: antologia teórica 1965-1995. São Paulo: Cosac Naify, 2006
THORNBERG, Josep Muntanola La Arquitectura Como Lugar. Barcelona. Editorial Gustavo Gili, S.A., 1974

Friday, March 05, 2010

SOBRE O CONCEITO DE CASA

Este texto é uma transliteração/ resumo comentado do texto de Zezinho Lira.

LIRA, José tavares Correia de. Sobre o conceito de casa ou como ver o objeto por excelência do arquiteto sem sair de casa. São Paulo. Revista Caramelo, FAUUSP, N. 5. s. d.


O termo casa está ligado a um universo extremamente largo de significações. Não se refere apenas a um edifício destinado à habitação, uma morada e suas dependências, podem comportar toda uma dimensão diferencial e simbólica. Há termos relacionados a casa tal como economia, palavra que vem do grego oikós (casa) nomia (regras) que significa a “arte de administrar a casa”, as propriedades de terra, os recursos materiais, e também as relações matrimoniais, paternas, maternas. Do mesmo modo há uma “engenharia da casa”: uma “parafernália” constituída de objetos úteis à vida da casa, que tem também interesse arqueológico quando perdem a validade ou atualidade.
Desde a sociedade disciplinar , os habitantes medidos (nomeados, numerados, normatizados) e distribuídos hierarquicamente no espaço funcional moderno. A cidade moderna expressa o ideário técnico e científico burguês e “legou uma concepção de casa e família radicalmente modificada”. A cisão entre trabalho e moradia expressa a distância entre o espaço rural, da manufatura, da burocracia, do lazer e do repouso, e coloca formas progressivamente especializadas de localização e de contatos sociais cronometrados, tempo e espaços individualizados, deslocamentos geométricos, transformando a rotina e os abrigos. Entretanto a casa moderna transcende aquilo que se entende por abrigo (LIRA, s. d.).
A habitação deixará de ser encarada à maneira de um envoltório, no qual “gerações sucessivas e descendências seriam entrelaçadas por tradições estáveis e referências de origem precisas”. A moral burguesa investe na construção de um indivíduo autônomo que reivindica propriedades, intimidade e privacidade. Contudo, depois do século XIX, “a casa é atravessada pelo fio de prumo da racionalidade da ciência, desencantada de sua relação com aspectos ecológicos e aspectos diversos da vida comunitária” (LIRA, s. d.).
Se os acontecimentos da casa grega não eram assuntos a serem tratados na ágora, na esfera pública, as necessidades humanas, que incluem todos os aspectos da produção e reprodução passam a ser assuntos públicos, de governo e da esfera pública na sociedade moderna e industrial. Os arquitetos aderem a este novo programa para habitação. Os Congressos Internacionais da Arquitetura Moderna, particularmente os de Frankfurt em 1929 e Bruxelas em 1930, são marcos da equiparação doutrinária da casa racional à máquina de morar corbusiana e da casa-ração de Walter Gropius (LIRA, s. d.).
A casa torna-se “espaço estratégico da formação do homem civilizado” que confirma o padrão técnico e científico da casa higiênica. A casa máquina é mercantil, os prazeres realizados no espaço doméstico são cada vez mais “alicerçados em uma economia da equipagem, do conforto ambiental e do bem estar” (LIRA, s. d.).
No período contemporâneo, o filosófo Gilles Deleuze observa que “a família, a escola, o exército, a fábrica não são mais espaços analógicos distintos que convergem para um proprietário, Estado ou potência privada, mas são agora figuras cifradas, deformáveis e transformáveis, de uma mesma empresa que só tem gerentes. Até a arte abandonou os espaços fechados para entrar nos circuitos abertos do banco” (DELEUZE, 1992). Deste modo, espera-se que a forma, a estrutura, a equipagem, o espaço da habitação deveriam acompanhar espacialmente as novas formas de controle, novos programas sociais, culturais e para o mundo do trabalho, novos modos de vida urbana e doméstica.

Sobre a sociedade disciplinar
Sociedades disciplinares refere-se a um termo criado por Michel Foucault para discriminar a rede de instituições disciplinares e seus mecanismos de exercício do poder, enquadram-se entre essas instituições a família, a escola, o quartel, a fábrica, o hospital e a prisão. O indivíduo não cessava de passar de um espaço fechado ao outro: família, escola, fábrica, universidade e eventualmente prisão ou hospital. Esta organização de grandes meios de confinamento, os quais tinham como objetivo concentrar e compor, no tempo e no espaço, uma forma de produção cujo efeito deveria ser superior à soma das partes. A existência de mecanismos disciplinares é anterior ao período que Foucault denominou como sociedade disciplinar, mas antes existiam de forma isolada, fragmentada. O padrão de visibilidade das sociedades disciplinares projectou-se no interior dos prédios das instituições, que passaram a ser construídos para permitir o controle interno In. POMBO, Olga. Da Sociedade disciplinar à Sociedade de controle. http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/sociedade%20disciplinar/index.htm
Ver tbm. DELEUZE, Gilles. Pós scriptum. A Sociedade Mundial de Controle. In. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 1992.

Sunday, June 07, 2009

INSTRUMENTOS DE NAVEGAÇÃO. CAPÍTULO 12 . INTELIGÊNCIA COLETIVA

Alunos: Clarice/ Gabriela/ Giovanna/ Natália/ Patrick


CAPÍTULO 12. INSTRUMENTOS DE NAVEGAÇÃO


O texto faz referência inicial à época anterior aos séculos XV e XVI, período das Grandes Navegações, quando o homem utilizava relatos para se localizar. Esses relatos por mais eficazes que fossem, eram muito mais descritivos do que funcionais, sua compilação em portulanos auxiliava na localização e viagem dos navegantes, todavia, existiam muitos relatos em branco, os quais eram preenchidos com histórias fantasiosas e mitos que se tornavam símbolos de grande força.
Nessa época, além da grande utilização da bússola, instrumento terrestre, o qual auxiliava na orientação a partir de um norte magnético; existiam também os algoritmos que eram mais eficazes do que os portulanos para navegação, vez que era uma descrição seqüencial de ações a serem tomadas pelos navegantes durante suas viagens.
Devido às necessidades de se navegar em mares desconhecidos, os portulanos e algoritmos não serviam mais, era também grande a dificuldade em encontrá-los. Fez-se necessário criar, então, uma espécie de território, o qual, em um campo abstrato e imóvel, far-se-iam projeções sobre o céu na terra, as quais funcionariam para localização dos viajantes. Essa localização era definida a partir da criação de pontos especificados neste território abstrato depois de sua divisão quadrangular. Os instrumentos utilizados na época se voltavam consequentemente à orientação pelo território do céu, tais instrumentos eram basicamente o quadrante e o astrolábio, que definiam de acordo com a altura da Estrela Polar ou do Sol a latitude e a longitude. Com a nova definição de espaço, a Terra é quadriculada e cercada por uma rede que cai do céu, e cada ponto possui a partir de então coordenadas e um endereço, mesmo que não seja assim desejado. Os relatos e os algoritmos dão lugar ao sistema do qual a geografia científica só é um caso particular. Esse sistema permite orientar-se onde ninguém jamais antes esteve, e permite realizar com certeza e precisão resultados de uma operação bem efetuada.
No espaço da mercadoria já não é possível fixar pontos em um sistema, visto que tudo circula e flutua incessantemente. A inércia do Território é forte, seus pontos de referência, fixos. O espaço econômico é móvel, relativista, sendo que nele é o terreno que viaja e se transforma. As mercadorias circulam, seus preços flutuam, possuem valores diferentes em um lugar ou em outro no mesmo instante, os sistemas de produção evoluem. O valor e a organização dos conhecimentos dependem estreitamente de um contato cultural, social e profissional cambiante.
A dificuldade no Espaço do saber consiste em organizar o organizador, objetivar o subjetivante. O saber sobre o saber deriva de uma circularidade essencial, originária, inelutável.
Para auxiliar o espaço das mercadorias, surge no século XVII, as estatísticas e probabilidades e seu desenvolvimento acompanha a expansão capitalista. Com esse mapa móvel os comerciantes terão como base os índices, taxas, médias, demanda e todos os itens suficientes para se adequares a esse espaço imprevisível, onde tudo circula e flutua. Porém as estatísticas escondem de os exemplos particulares, ocorre generalização o que deixa por vezes um caso isolado no esquecimento. As estratégicas são submetidas à lei de grandes números, levando à probabilidades assim as qualidades são reduzidas a quantidades.
Considerando que o espaço do saber não pode apoiar-se na estatística puramente quantitativa à maneira mercantil, ou uma organização transcendente como o território, o cinemapa desenvolve espaço qualitativamente diferenciado. A organização desse espaço vai mostrar essa complexidade de relações que os objetos ou atores do universo informacional mantêm uns com os outros.
O cinemapa consegue dar tributo diferente, para cada lugar, com suas peculiaridades. Para cada ponto mostra investigações mais profundas, fornecem detalhamentos: o cinemapa é um mosaico móvel em permenente recomposição, onde cada figura é completa, mas adquire valor e sentido na configuração geral.
Ele permite ler uma situação, um espaço qualitativo. Grupo humano para utiliza-lo precisa intelectual coletivo. Assim, o cinemapa é uma realidade virtual , um ciberespaço.

Sunday, May 31, 2009

Novo cronograma ...

01/Junho
Barroco ainda e 19. Preparação para disciplina estética. Visualidade x drama: Willian Sheakeaspeare. A invenção da liberdade: David Hume (a teoria do gosto). Aesthetica (Baumgarten)

03 de junho
18. Transformações no conceito de espaço: extensão-divisibilidade. Boullé, Ledoux, Durand. 20. O criticismo. A crítica da faculdade de julgar Emanuel Kant / Hegel

08/Junho
21. O romantismo: a visão de mundo e a função da arte. Processos em arte, categorias estéticas: belo, sublime, grotesco, pinturesco em arte e em arquitetura.

08 e 10/Junho22. Hegel. O nascimento da história da arte e o sistema das artes. Nietzsche, a oposição a Hegel.


15 de junho23. O projeto moderno: modernidade, modernismo, movimentos modernos, funcionalismo.

17 de junho24. As teorias artísticas em arte e arquitetura: a empatia (einfühlung), a formalidade. A crítica do formalismo: Iconologia e tipologia. A filosofia das formas simbólicas.

22 e 24/Junho 29/Junho25. O momento pós-critico: Peter Einseman critica aos fundamentos da arquitetura moderna. 26. A nova agenda da arquitetura: fenomenologia, pós-estruturalismo

01 e 06/Julho 28. O design, o projetista: seus modos de ver e pensar – Flusser e Lawson

08/Julho 29. As relações entre espaços, a deriva contínua do mundo humano

IMITAÇÃO DA NATUREZA

Com base em: HAAR, Michel. A obra de arte. Ensaio sobre a Ontologia das obras. Rio de Janeiro: Difel, 2000
Por Fernada Ferri
Tópico do programa: Conceitos de beleza e arte. Platão e Aristóteles.

IMITAÇÃO DA NATUREZA
1. A depreciação platônica da arte
Segundo Platão, a imagem produzida por um artista é duplamente inadequada.
Comparando uma cama feita por um marceneiro e uma cama pintada por um pintor, ele fundamenta-se no postulado realista que julga que uma cama da qual possamos servir-nos seja superior a uma cama que se pode apenas olhar, e sempre pelo mesmo ângulo. Por isso ela é dita como inadequada ao ente (a coisa representada), e ao ser (a idéia).
A teoria do espelho deprecia a imagem artística comparando-a a um reflexo no espelho, uma ilusão sem substância, e o artista é comparado a um charlatão desprovido de ofício, sendo que a imagem produzida por ele qualquer um pode produzir sem qualquer dificuldade.
È estabelecida uma hierarquia das três camas: a primeira é o protótipo, estabelecido pelo próprio Deus, a única que é realmente existente “por natureza”; a segunda é a que é fabricada pelo marceneiro; a terceira, a que é pintada pelo pintor. Aqui o termo “natureza” significa a essência, aquilo que se mostra por si mesmo em oposição ao que é produzido por meio de outra coisa.
A partir desta hierarquia Platão distingue três tipos de “produtores”:
1. o deus: Aquele que toma a seu cargo a apresentação do puro aspecto das coisas;
2. o artesão: Aquele que reproduz o objeto a ser usado correspondendo verdadeiramente à sua idéia;
3. o pintor: “Operário da imagem”. Propõe-se não a representar o objeto tal qual ele é, mas sim tal qual aparenta.
E assim como não se pode aprender com um pintor a maneira de se fazer uma cama, não se pode aprender com um poeta que canta sobre a cura a maneira de curar, pois a imitação artística e poética não se baseia em conhecimento algum. Segundo Platão ambos são ignorantes, e a arte é algo inútil, que não ensina nada pois não se fundamenta em nenhum conhecimento verdadeiro.

2. Apologia da arte egípcia
A arte grega do século V não respeita proporções, alterando-as em busca da verossimilhança do objeto representado em relação ao ponto de vista do espectador. Assim, para que, vistas de baixo, a parte superior de uma estátua colocada no alto não pareçam menores, elas são aumentadas em relação às inferiores, passando para o espectador uma aparência, e não a verdade intrínseca do objeto representado.
A arte egípcia, ao contrário, não visa agradar o ponto de vista do observador. O artista egípcio não procura expressar o natural, nem a perspectiva, e nem busca dar aparência de vida e movimento, que os gregos chamam de skiagraphia, o “desenho da sombra”, que Platão relaciona com a intenção de enganar dando substância a algo que não tem. O artista egípcio negligencia esta percepção que faz parecer o objeto representado sempre do mesmo ponto de vista. Ele respeita a essência do modelo e o reproduz tal qual é em si mesmo, sem se preocupar com o aspecto que irá parecer. Uma arte que não procura enganar.
Em O sofista, Platão contrapõe essas duas artes distinguindo duas formas de “arte imitativa”:
1. A ”arte da cópia”: Trata-se de uma arte que produz uma imagem semelhante, comparável ao modelo, reproduzindo a proporções, e dando a cada parte as cores apropriadas. A arte egípcia;
2. A “arte do simulacro”: Trata-se de uma arte que não se preocupa em reproduzir as verdadeiras proporções, mas sim as que aparentam belas aos olhos do observador. A arte grega.
Platão luta contra essa tendência da “arte do simulacro”, cada vez mais relativista e ao mesmo tempo naturalista.

3. Aristóteles: a legitimação da mimèsis
Aristóteles também afirma que a arte seja imitação, mas coloca a imitação como algo “natural”, verdadeiro, não sendo ignorância ou ilusão, mas sim uma atividade conforme a “natureza”.
Para ele, a célebre fórmula da Physique, “A arte imita a natureza”, não significa que a arte deva reproduzir a natureza, mas sim que a arte tem essa capacidade, além de ter a capacidade de produzir, rivalizando com a natureza.
Ele propõe três maneiras fundamentais de imitar: a representação do que as coisas são; a representação do que as coisas parecem ser, o verossímil; e a representação do que as coisas deveriam ser, o ideal.
Aristóteles é o primeiro filósofo a analisar a natureza do prazer estético, concluindo que o prazer estético legítimo deve-se ao fato de que a obra de arte nos faz raciocinar ao compararmos o retrato ao seu modelo, nos encantando encontrar esta relação mimética entre arte e natureza. Contrariamente a Platão a arte não é ignorância, e sim ampliação do conhecimento.
Mesmo com essa legitimação da arte, que precede inúmeras outras, a condenação platônica ressurgirá inúmeras vezes, e um exemplo claro é através da censura. A discussão nos dias atuais, embora hoje a censura teatral tenha deixado de existir, persiste a censura cinematográfica com o pretexto de defender a juventude do vício, indecência e crime.

Saturday, May 23, 2009

Figuras de espaço e de tempo – Cap. 11

Segundo Levy, a Terra constitui a memória dos homens. Em suas paisagens mapeia as epopéias e guarda todas as sabedorias. Pois o espaço vive e cada canto do mundo contém uma história. Onde as trilhas não são refeitas, perde-se a referência da memória e tudo morre. Quando refeitas, a origem se faz presente. Tudo revive, pois jamais passou. Aqui o espaço é percorrido por forças, pontuados de lugares altos, intensidades, centros, livres de áreas proibidas. Trata-se do espaço-memória, um espaço-narração, a encarnação de uma subjetividade coletiva dentro do cosmo.

 “(...) Os sites notáveis da Terra nômade são ossuários, restos de gigantomaquias (...)” [p.149]

 A invenção (a novidade) é uma reminiscência. Com o retorno cósmico, o devir sobre a terra alimenta a eternidade. Ao tempo Terra, chamamos imemorial. Todo espaço habitado, por peregrinos, viajantes, aventureiros e poetas reconstitui a Terra. O tempo é transportado com a Terra. Ela está sempre presente e é sempre o presente.

 Imemorial (figuras de tempo)

 “A inteligência produz recortes que introduzem em re

giões de parada no devir, correspondendo a contrações do passado mais ou menos fluida. Quanto mais fluídas, mais próximas estarão de uma dimensão virtual, da memória imemorial. Somente através da memória se pode atingir o passado, e este, não existindo como um antigo presente, só se torna possível enquanto produção no presente, resgatado pelo imemorial. Assim, é somente a partir de hoje que se pode falar sobre o passado, e é implicado no presente e comprometido com o futuro que se faz valer o passado — um passado sempre a se refazer no presente.” [Rauter, 1998].

 

Território: a clausura, a inscrição, a história (3.000 a.C).

 


Espaço: Clausuras (fundações)

 

Clausura:

  1. Vida de claustro.
  2. Estado de quem não sai de casa, e vive nela com retraimento.
  3. Fig. Claustro, convento.

 

Liames:

  1. Tirar a rudeza; civilizar.
  2. Polir; aperfeiçoar

 

Tempo: História; Tempo “lento” diferido, engendrado pelas operações espaciais de clausura e fundação.

 

 A fundação é o ato que cria o Território. Cada vez que se funda, no sentido do gênio ou da arquitetura e no sentido de instauração, estende-se o império do Território.

 Fundação é o início da criação do espaço e inaugura o tempo. Lembrando que o lugar é existente, mas o espaço territorial passa a ser contado através do espaço-tempo, sustentado pela continua fundação e refundação.

“O camponês cerca, ara, carpe, e planta o campo. O rei cava os fossos, ergue muros em torno da cidade, e edifica no centro seu palácio. O padre delimita o espaço sagrado, núcleo secreto do templo, para nele alojar um ídolo, um altar ou a ausência.” (vazio constitui um espaço). “O escriba prepara a tábua de argila, o papiro (...) inscreve (...) o texto (...) cercado por suas margens.” [p.150]

“Os cercados abrigam (...); as fronteiras impedem (...); o Estado prende (...); canais e estradas canalizam os fluxos. Alfândegas, guichês, portas restabelecem continuamente o dentro e o fora. Entre os escribas, os exames e concursos erguem barreiras em torno do saber.” [p.151]

Seguindo...

Todas as fortificações são proteções contra a aniquilação e o esquecimento, esforços para durar, permanecer, não passar. Já a agricultura instaura os jogos e os riscos da duração, do atraso, do estoque. Surgindo celeiros, silos, depósitos, adegas, tesouros enterrados, previsão para os anos de escassez, e aposta no futuro.

 Estoque do sentido, a página grifada, semeada de signos invoca a leitura, a interpretação, o comentário. As falas se evaporam, restam as escritas.

 Restare: Deter-se, que provém de stare, manter-se de pé, plantado, fundado.

 Levy afirma que só existe o antes e o depois porque existe o dentro e o fora. O Território produz o tempo linear da história, a qual não corre mais rápida do que o imemorial, é outra velocidade, outra qualidade de tempo: a lentidão do Território.

 

 

Mercadoria: circuitos, tempo real (1750).

Espaço: Redes; Circuitos Urbanos.

 Tempo: Tempo real; Tempo abstrato e uniforme dos relógios.

“Desterritorializados, homens, coisas, técnicas, capitais, signos e saberes renovam-se e giram continuamente nos circuitos da mercadoria. As estratégias comerciais não mais erguem proteções: instalam redes, organizam circuitos. Redes de comunicação, de transporte, de distribuição e de produção entrelaçando-se (...), tecendo um espaço de circulação.” [p.151]


CAPÍTULO 10 – SEMIÓTICAS

LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva. São Paulo: Loyola, 2007.

ALUNOS: Letícia Colnago e Renan Grisoni

 

RESUMO - CAPÍTULO 10 – SEMIÓTICAS

Cada espaço antropológico desenvolve um regime de signos, uma semiótica específica.

A semiótica da Terra, ou a presença

Na Terra, o signo participa do ser, e o ser do signo. Aqui, tudo nos fala. Animais e pessoas, astros e climas, formas e detalhes nos fazem sinal, remetem a relatos, discursos, rituais. Simetricamente, o signo é um atributo, uma parte ativa da coisa, do ser ou da situação que ele qualifica. Graças ao sopro que o leva, o signo não se separa jamais de uma presença. As falas são atos, exercem poderes, destroem e criam. Atos divinos ou rituais humanos são gestos e cantos que sustentam o mundo. Tal é o regime semiótico dos “primitivos”, dos animistas, das culturas anteriores à escrita, das crianças muito pequenas.

 

A semiótica do Território, ou o corte

No Território, a fala é destacada do sopro vivo e fixada em um suporte inerte, é sedentarizada pela escrita.  As coisas às quais remetem esses signos talvez estejam muito longe, ou tenham passado há muito tempo. Os signos representam as coisas: tornam presentes as coisas ausentes. O vínculo cambiante, vivo, atual entre os seres, os signos e as coisas é diferido. As separações e as fronteiras que quadriculam o Território insinuam-se no centro das relações de significação: o corte semiótico está instituído. Entre os signos e as coisas interpõe-se de agora em diante o Estado, a hierarquia e seus escribas. Doravante, o signo representa. O signo é arbitrário. É transcendente. O signo está presente, mas sem possuir, é claro, a dignidade ontológica e a imanência da coisa terrestre. É um ser menor.

 

A semiótica da Mercadoria, ou a ilusão

No espaço das mercadorias, já não é apenas a fala que está separada de uma situação viva. Quadros e rostos, paisagens e músicas, ritos e espetáculos, todos os tipos de acontecimentos são indefinidamente reproduzidos e difundidos fora de seu contexto de surgimento. Multiplicado pela mídia, levado por mil vias e canais, o signo é desterritorializado. No Espaço das mercadorias, os fluxos de signos correm desenfreados. O corte funcionou tão bem que a transcendência não vincula mais. Na semiótica mercantil, o signo já não representa, ele traça. Já não é um representante com o crédito de uma transcendência, mas um vírus, trabalhando para se reproduzir, competindo em velocidade com outros vírus para ocupar o espaço midiático. É isso o espetáculo: todo o real é passado para o lado do signo. Os fatos, as pessoas, as obras são signos e são tratados, reproduzidos, difundidos como tais.

 

O Espaço do saber, ou a produtividade semiótica

A semiótica do Espaço do saber define-se pelo retorno do ser, da existência real e viva, na esfera da significação. No Espaço do saber, os intelectuais coletivos reconstituem um plano de imanência da significação no qual os seres, os signos e as coisas voltam a encontrar uma relação dinâmica de participação recíproca, escapando às separações do Território, assim como aos circuitos espetaculares da Mercadoria. O retorno do real na esfera da significação supõe o envolvimento dos sujeitos vivos; mas sugere também que o espaço dos signos torna-se sensível, semelhante a um espaço físico (ou a vários!): que possamos entrar nele, observar a nós próprios, encontrar os outros, explorá-lo, apalpá-lo, modificá-lo. De um espaço a outro, tornar real, dar vida é conduzir ao dia claro do sentido, manifestar por meio de signos. Entre os seres humanos, o que não foi cantado não existe.  

Monday, May 18, 2009

O QUE É UM ESPAÇO ANTROPOLÓGICO?

O QUE É UM ESPAÇO ANTROPOLÓGICO?
In. A Inteligência Coletiva LÉVY. Pierre. A Inteligência Coletiva. São Paulo Loyola, 2003.
Multiplicidade dos espaços de significação
Há diferentes espaços gerados pela interação entre as pessoas, as situações, as trocas de mensagens e representações, que denominam-se espaços plásticos. O homem vive constantemente produzindo, transformando e administrando os espaços que se criam e entrelaçam.
Os espaços são estruturados pelas pessoas, pelas palavras, imagens e conceitos, de acordo com a intensidade afetiva que os ligam. Assim, os espaços podem se curvar e deformar em torno dos objetos que os contêm e organizam, podendo ser mais duráveis ou passageiros.
Espaços maiores existem, por exemplo, na escala das instituições, grupos sociais, conjuntos culturais, etc, e que envolve elementos não humanos como sistemas de signos, armas, vírus, etc.
A importância de um acontecimento é reconhecida por sua capacidade de reorganizar as proximidades e as distâncias nos espaços, “quando não seu poder de instaurar novos espaços-tempos, novos sistemas de proximidades”.
Além do espaço físico ou geométrico existe também os espaços de significação, que compreende espaços afetivos, estéticos, sociais, históricos, entre outros.
“Vivemos em milhares de espaços diferentes, cada uma com seu sistema de proximidade particular (temporal, afetiva, lingüística etc.), de modo que uma entidade qualquer pode estar próxima de nos em um espaço e bem distante em outro.”(...)
“Dessa forma, passamos nosso tempo a modificar e a administrar os espaços em que vivemos, a conectá-los, a separá-los, a articulá-los, a endurecê-los, a neles introduzir novos objetos, a deslocar as intensidades que os estruturam, a saltar de um espaço a outro.”
Os espaços antropológicos são estruturantes, vivos, autônomos, irreversíveis
Os espaços antropológicos são constituídos de uma multiplicidade de espaços interdependentes. Os quatro espaços antropológicos (Terra, Território, Espaço das mercadorias e Espaço do Saber) são estruturantes e contém vários espaços diferentes. Eles são produzidos pelos processos e interações que neles acontecem.
O Espaço do saber não deve ser confundido com um recipiente que contém todos os saberes possíveis. O espaço do saber produz uma forma específica de saber, reorganiza, hierarquiza e insere em seu meio ativo os modos de conhecimento resultantes dos outros espaços antropológicos.
Da mesma forma que o Espaço das mercadorias não é a “economia”, mas supera o domínio da produção e das trocas econômicas para englobar quase todos os aspectos da vida humana. Assim o Espaço das mercadorias cresceu e se desenvolveu de maneira autônoma, auto-organizada, criadora e destruidora.
Os espaços antropológicos ganharam consistência, autonomizaram-se até se tornarem irreversíveis. A irreversibilidade é a qualificação dos espaços antropológicos.
Cada espaço antropológico produz sua própria estrutura com a devida autonomia. Apesar de parecerem se sobrepor, eles se permeiam e coexistem, uma vez que não devem ser entendidos como meio físico ou objeto, mas sim algo mais abstrato, tangendo o limiar da emoção e relação entre tudo aquilo que existiu, existe e existirá. Nesse sentido, podem ser entendidos como “planos de existência” com velocidades de processamento diferentes e que se renovam dinamicamente.
Estes espaços podem ser classificados em quatro esferas: a Terra, que é a freqüência básica, pré-existente e possui uma velocidade acima da compreensão da vida animal, ou seja, intangível; o Território, que passa a ser a inserção do indivíduo na Terra, e o estabelecimento de uma velocidade perceptível e de uma forma de organização da relação espaço-indivíduo, indivíduo-indivíduo, e espaço-espaço; o Espaço das mercadorias, baseado na aceleração, inserida pelo capitalismo; e, ao final, o Espaço do saber, constituído pelas redes digitais, universos virtuais e vida artificial, uma vez que não se constitui do ‘conhecimento’, mas da troca de informações dentro de uma ‘inexistência física’ ou ‘surreal’.
O autor pontua que “não havia necessidade alguma no surgimento dos espaços antropológicos”, negando assim, de certa forma, o processo de evolução que estabeleceu a contemporaneidade. A exemplo, cita as antigas civilizações, grega, egípcia, mesopotâmica, romana e chinesa, como grandes impérios que poderiam apenas ter continuado a sucessão do que já havia se estabelecido no Espaço do Território, ou seja, na esfera organizacional entre indivíduos e espaço físico. Dessa forma, condena o desencadeamento do capitalismo por volta do século XVI como forma de aniquilamento da memória, cultura e linguagem através da aceleração do processo histórico e unificação das tão diferenciadas sociedades em prol da economia.
A cartografia antropológica pode ser entendida não a partir da classificação e isolamento, mas sim pela processo ‘quase cronológico’, ou melhor, uma espécie de processo temporal vista sob o foco atemporal, em que estão aplicadas as relações, situações e emoções de tudo presente no cosmos, sob a forma de um desenvolvimento natural desordenado (não linear).
Ao final, o autor destaca que sob quaisquer circunstâncias as quatro esferas do espaço antropológico, a Terra, o Território, o Capital, e o Espaço do saber coexistem em toda parte, diferentemente, descoordenadamente e sob a inegável necessidade atual de existirem.


Autores: Bárbara Lyrio Fernandes Frazão, Bárbara de Araújo Torres e Renata Collodetti

Wednesday, April 29, 2009

Design, forma e matéria

Sumário do texto A Forma das Coisas, Uma Filosofia sobre o Design de Vilém flusser Tradução livre por Débora F. Figueiredo Bergamasco
Aluna: Lilian Dazzi Braga

Sobre a palavra Design
Para Flusser o design é objeto de análise etimológica, não começa com a ciência, nem com a apreciação de objetos fabricados ou a visão dos criadores, mas com o significado das palavras. A palavra Design em inglês é tanto um verbo (simular, desenhar, etc) como um substantivo (intenção, plano, estrutra básica).
A palavra design, máquina, tecnologia , arte, estão diretamente relacionadas e todas derivam da mesma visão de mundo. Um design está associado à esperteza e ao engano. O grego “mechos”, de máquina, significa “engano”, feito para enganar, “armadilha”. Uma máquina é uma ferramenta desenhada para enganar, a mecânica é o truque para trapacear corpos pesados.
A idéia é de que a madeira é um material sem forma ao qual o artista, o “técnico”, dá forma. Portanto causa a forma aparecer em primeiro lugar. Para Platão, a arte e a tecnologia traem e distorcem formas teoricamente intangíveis (idéias) quando transferem estas ao mundo material. Para ele, artistas e técnicos, eram traidores das idéias e trapaceiros porque espertamente seduzem pessoas a perceberem idéias distorcidas.
A cultura burguesa moderna fez uma divisão entre o mundo das artes e o da tecnologia. A cultura foi dividida em uma científica, quantitativa, “hard” e outra estética, evolutiva, “soft”. O design indica onde a arte e tecnologia se juntam como iguais, fazendo uma nova forma de cultura possível.
Entretanto, essa nova forma de cultura é enganosa. O design da alavanca copia o braço humano, é um braço artificial. Essa máquina, este design, esta arte, esta tecnologia, é feita para enganar a gravidade. Este é o design base de todas as culturas: enganar a natureza por meio de tecnologia, substituir o natural pelo artificial. O design por trás de todas as culturas tem que ser “enganador” suficiente para tornar meros mamíferos condicionados pela natureza em artistas. Ser um ser humano é um design contra a natureza.
A questão do design substitui a da idéia. Como um exemplo temos as canetas de pástico, são designes que não notasmos, e são dadas como brindes, não tem valor. As grandes idéias por tras delas são tratadas da mesma maneira que o material (plástico) e trabalho por trás delas.

Forma e Material
A palavra material, tradução do termo grego hylé, é o resultado da busca de uma palavra que expressase o oposto da palavra forma(morphe em grego). Portanto hylé é algo amorfo. O mundo material é aquele preenchido com formas, dando um enchimento. Como exemplo temos uma mesa, eu vejo madeira em forma de mesa, seu estado é transitório (será queimada e decomposta na forma amorfa de cinza). A forma da mesa é eterna, uma vez que eu posso imagina-la a qualquer tempo em qualquer lugar. A forma da mesa é real, e o conteúdo é apenas aparente. Os carpinteiros enformam a madeira (impõem a forma de mesa) e também deformam a idéia de mesa (distorcem ela na madeira).
Se a forma é o oposto da matéria, então não existe design que possa ser chamado de material. É sempre “enformar”, colocar em uma forma. A forma é o “como” da matéria e “matéria é o “que” da forma, o design é um dos métodos de dar forma à matéria. Uma vez o material enformado começa a aparecer (se torna fenômeno). Portanto material é design, é a forma como a forma aparece.
A questão atual é a de realizar as formas designadas para produzir mundos alternativos, para a “era da informação”. Não é mais uma questão de formalizar um mundo conhecido e garantido, como no passado. Isso significa a cultura “imaterial, mas deveria ser chamada de materialização da cultura, a visibilidade das formas e idéias.
O ponto central é o conceito de enformar. Impor formas aos materiais. O que quer que “material” possa significar, não significa o oposto de “imaterial” ou melhor, a a forma, é que faz o material aparecer. A aparência do material é a forma.

Tuesday, April 28, 2009

Os Quatro espaços (cap. 7)

A Inteligência Coletiva LÉVY. Pierre. A Inteligência Coletiva. São Paulo Loyola, 2003.
Leituras pelo grupo: Conrado Carvalho, Deyvid Preato de Paula, Julia Ferolla Falqueto, Kamila Drago Bona, Lívia Delboni Lemos, Minieli Fim, Stella Brunoro Hoppe e Tatiana Virgilio Pereira

Os Quatro espaços
A terra
A terra, a grande terra nômade, foi o primeiro espaço ocupado pela humanidade. Nossa espécie produziu a terra elaborando o mundo como tal. A terra é o mundo das significações. A humanidade inventou a si própria, desenvolvendo a terra. A terra é o espaço-tempo imemorial ao qual não se pode atribuir origem. É o espaço "desde sempre presente" da espécie, que contém e supera o começo, o desdobramento e o futuro do mundo humano.
A terra é um cosmo, em que os seres humanos estão em comunicação com os animais, plantas, paisagens, lugares e espíritos. É o lugar das metamorfoses. O humano vive sobre uma terra que ele elabora e reelabora constantemente por meio de suas linguagens, ferramentas e edifícios sociais complicados e sutis.
A revolução Neolítica não suprimiu a grande terra nômade e selvagem. Atravessando as fronteiras das identidades, o coração da terra ainda canta sua louca canção de sonho e de vida, que mantém a existência do mundo.
O território
Difunde-se sobre a terra como um segundo espaço antropológico -A domesticação e criação de animais, a agricultura, o estado, a cidade, a escrita, uma estrita divisão social do trabalho -um novo mundo se estabelece: O mundo sedentário da "civilização".
A agricultura, a cidade, o estado ou a escrita são daí por diante virtualidades inerentes a humanidade que contribuem para quadricular o território. A figura emblemática do primeiro espaço poderia ser um caçador do paleolítico. Já para o território teríamos uma grande pirâmide cobrindo com sua sombra todo o povo de felás, de artesãos, de escribas e também de soldados, todos ali dominando campos de cevada e trigo, canais de irrigação, e de cidade, com seus lugares, ruas, córregos, templos, estátuas e muros.
O território trabalha para recobrir a terra nômade, diminuir as margens, instaura com a terra uma relação de depredação e destruição. A terra volta sempre -Conflito dos espaços.
Até a Segunda Guerra a maior parte da humanidade, camponesa, viveu no território.
O Espaço das mercadorias
Em meio às fumaças da Revolução Industrial, no século XVII, que se abre o Espaço das mercadorias -uma espécie de novo mundo tecido pela circulação contínua, cada vez mais intensa, cada vez mais rápida, do dinheiro. Esse mundo flutuante, disperso e inconsistente só atinge a superfície e as margens da vida social. Mas consegue reunir os membros dispersos. Esse novo mundo acaba crescendo sozinho. Atravessando as fronteiras, abalando as hierarquias do Território -rapidez imóvel.
O capitalismo transforma em mercadoria tudo o que consegue incluir em seus circuitos. O Espaço das mercadorias organiza os espaços anteriores segundo seus próprios objetivos. O capitalismo é “desterritorializante”, e foi durante três séculos o motor principal da evolução das sociedades humanas. O capitalismo é irreversível. É daqui por diante a economia, e a institui como dimensão impossível de ser eliminada da existência humana.
Sempre haverá o Espaço das mercadorias, como sempre haverá a Terra e o Território.
Que movimentos ainda mais rápidos, mais envolventes que os da economia desterritorializarão a desterritorialização? Eis que a camada mercantil sofre um furo, abrindo para outro espaço.
O Espaço do saber
Espaço do saber não existe. Não se realiza em parte alguma, é virtual. Na expectativa de nascer já está presente, mas dissimulado, disperso, travestido, mesclado.
Espaço do saber não se trata apenas do conhecimento científico – recente, raro e limitado -mas daquele que qualifica a espécie. Cada vez que um ser humano organiza ou reorganiza sua relação consigo mesmo, com seus semelhantes, com as coisas, com os signos, com o cosmo, ele se envolve em uma atividade de conhecimento e de aprendizado.
É sem fronteiras de relações e de qualidades. Os intelectuais coletivos inventam línguas mutantes, constroem universos virtuais, ciberespaços em que buscam formas inéditas de comunicação. O quarto espaço não existe, no sentido de que ainda não adquiriu autonomia. Mas desde o advento de sua virtualidade sempre existiu.
Nenhum grande entardecer fará surgir o espaço do saber, mas muitas pequenas manhãs.

Tuesday, April 21, 2009

Cibercultura

Cibercultura. LÉVY, P. Trad. Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999.
Cibercultura? Mas, o que é isso? A interconexão mundial de computadores forma a grande rede, mas cada nó dela é fonte de heterogeneidade e diversidade de assuntos, abordagens e discussões, em permanente renovação.
"A hipótese que levanto é a de que a cibercultura leva a copresença das mensagens de volta a seu contexto como ocorria nas sociedades orais, mas em outra escala, em uma órbita completamente diferente. A nova universalidade não depende mais da auto-suficiência dos textos, de uma fixação e de uma independência das significações. Ela se constrói e se estende por meio da interconexão das mensagens entre si, por meio de sua vinculação permanente com as comunidades virtuais em criação, que lhe dão sentidos variados em uma renovação permanente." (p.15).

A cibercultura é um problema a resolver
1. Lévy mostra que as tecnologias não determinam, mas condicionam as mudanças à medida que criam as condições para que elas ocorram. Além disso, aborda o movimento social que deu origem ao ciberespaço – a experimentação de novas formas de comunicação, depois cooptado pelos interesses da indústria, e as grandes tendências de evolução técnicas no que se refere a interfaces e a tratamento, memória e transmissão das informações.
2. As implicações culturais do desenvolvimento do ciberespaço: Lévy contempla essencialmente três temas: as artes, o saber e a cidadania. As mutações nas formas de ensinar e aprender. O futuro papel do professor não será mais o de difusor de saberes, diz, mas o de “animador da inteligência coletiva” dos estudantes, estimulando-os a trocar seus conhecimentos.
3. Com o advento do ciberespaço, o compartilhamento de memória permite aumentar o potencial da inteligência coletiva. O saber, agora codificado em bases de dados acessíveis on-line, é um fluxo ininterrupto e grande escala.
Ciberespaço
"O ciberespaço (que também chamarei de "rede") é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo "cibercultura", especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço." (p.17).

"Um mundo virtual, no sentido amplo, é um universo de possíveis, calculáveis a partir de um modelo digital. Ao interagir com o mundo virtual, os usuários o exploram e o atualizam simultaneamente. Quando as interações podem enriquecer ou modificar o modelo, o mundo virtual torna-se um vetor de inteligência e criação coletivas." (p.75).

Capítulo 3 Do molar ao molecular

Capítulo 3 Do molar ao molecular: tecnologia da inteligência coletiva (pp 47-58).
LÉVY. Pierre. A Inteligência Coletiva. São Paulo: Loyola, 2003.

“Nada é mais precioso do que o humano. Ele é a fonte das outras riquezas, critério e portador vivo de todo o valor.”
A evolução das técnicas, especialmente das técnicas da comunicação, renova profundamente o leque de soluções possíveis aos problemas de gestão do laço social e da maximilização das qualidades humanas. A novidade da engenharia do laço social reside antes nas finalidades e nas modalidades dessa engenharia.
Em oposição as tecnologias molares que consideram as coisas no atacado, em massa, as cegas, de maneira entrópica, as tecnologias moleculares abordam de maneira bem precisa os objetos e os processos que elas controlam (LÉVY, p. 48). As técnicas moleculares reduzem os desperdícios e as rejeições ao mínimo.

Vida
Lévy se refere as duas seleções a natural – a que a vida aplica a si mesma, e a artificial finaliza e acelera a formação de espécies (...).

Matéria
Podem-se classificar as técnicas para domínio da matéria em três grandes categorias: mecânicas, quentes e frias.
As tecnologias controlam o ponto de apoio de aplicação das forças humanas, animais ou naturais (ferramentas, armas, instrumentos, arados, velas, etc), a transmissão dessas forças (rodas, polias, árvores, engrenagens etc) e a reunião simples de materiais (nós, tecidos, arquitetura primitiva etc).
Lévy se refere aos desenvolvimentos também como o cruzamento da física, da química e das ciências materiais, que junto à nanotecnologia poderão acarretar imensos questionamentos econômicos, sociais e culturais...

Informação
As técnicas de controle das mensagens podem ser classificadas em três grupos principais: somáticas, midiáticas e digitais. As técnicas somáticas implicam a presença efetiva, o engajamento, a energia e a sensibilidade do corpo para a produção de signos.
As tecnologias midiáticas são molares, fixam e reproduzem mensagens a fim de assegurar maior alcance, melhor difusão no tempo e no espaço. A mídia propriamente dita aos meios de comunicação de massa se dá com técnicas de reprodução dos signos e marcas: selos, carimbos, moldagem, cunhagem de moedas (protomídias). Da escrita à difusão em massa de escrita e sons, graças à fotografia, à gravação sonora, ao telefone, ao cinema, ao rádio e à televisão.
As mídias fixam, reproduzem e transportam as mensagens em uma escala que os meios somáticos jamais poderiam atingir. Mas, ao fazê-lo descontextualizam essas mensagens e fazem-nas perder sua capacidade original de adaptar-se às situações nas quais eram emitidas por seres vivos. (...) (LÉVY, p. 52).
Pierre Lévy, nesta parte do capítulo 3, segue uma análise sobre as mídias... que vale a pena ler-ver p.53-54 do livro Inteligência Coletiva.

Coletivos humanos
As famílias, clãs e as tribos são grupos sociais orgânicos. Os Estados, as Igrejas, as grandes empresas, assim como as massas são grupos organizados molares, que passam por uma transcendência ou exterioridade para se constituir e se manter. Os grupos moleculares são auto-organizados.
Nos grupos orgânicos as regras, os códigos, as tradições são fixados e carregados pela própria comunidade constituída como corpo. As tecnologias da transcendência se colocam com a formação de grupos populacionais numerosos, os líderes, os chefes, reis e representantes unificam e polarizam o espaço coletivo. As instituições configuram um tempo contínuo. A burocracia torna-se seu órgão separado de gestão e tratamento da informação. Há divisão estrita de trabalho e ruptura entre execução e concepção para “melhor” coordenação das atividades. A transcendência e a segregação são tecnologias molares, as mudanças se efetuam de maneira custosa, brutal até catastrófica: golpes de estado, motins, revoluções, revoltas.
A política molecular os grupos não estão para serem forças a explorar são inteligências coletivas que elaboram e reelaboram seus projetos, recursos e refinam suas competências. Esta política é “fina” e não quer modelar o coletivo segundo um plano pré-estabelecido. Ela suscita um laço social imanente, emergindo da relação de cada um com todos (p 56-57).
A multiplicação dos coletivos moleculares supõe um declínio relativo da mídia em proveito do ciberespaço acolhedor das inteligências coletivas.
Sem hierarquias as comunicações seriam transversais, recíprocas, fora de categorias, e as cidades seriam um grande tecido metamórfico, “cidades calmas”.

Monday, April 20, 2009

Redes sociais, redes urbanas e outras

Rede - Anne Cauquelin in Arte Contemporânea
Características das redes: É um conjunto extensível e auto-organizável. Elas repercutem-se umas sobre outras. A noção de sujeito comunicante se apaga em proveito da produção global de comunicações. A anelação ou autonomia em relação a outros sistemas, estruturas. Nominação ou prevalência do continente (a rede prevalece sobre o conteúdo). Redundância ou saturação, quer dizer, na rede pode haver a construção de uma realidade de segundo grau, simulação.

Redes sócio-culturais: Rede é o próprio tecido da sociedade
Distinguir redes alternativas e as pirâmides disfarçadas com base nos autores: Deleuze, Guattari, Mendel, Castels
Redes são tecidos sociais que se formam a partir do estabelecimento de relações entre entes independentes, mobilizados por uma questão ou objetivos comuns que, de alguma forma, concorra para os objetivos específicos de cada ente (Inojosa, 2001). Esta definição enfatiza ou privilegia a comunicação ou relação entre pessoas e o objetivo compartilhado. Manuel Castells se encaminha para a mesma ênfase na conexão, para ele rede é um conjunto de nós interconectados...
INOJOSA, Rose Marie. Redes de Compromisso Social. In: Revista de Administração Pública - RAP. Rio de Janeiro: FGV,33 (5),set./out.1999: 115-141.

As formações sócio-espaciais são constituídas como dois tipos de espaço os espaços dos lugares e espaços dos fluxos segundo Manuel Castells. Assim o espaço social é compreendido dos processos que operam em um lugar específico que o distinguem e, talvez, fornecer-lhe uma identidade, e pelos processos que são operados através dos lugares poder criar uma formação social coerente em relação às conexões. Estes dois jogos de processos não são exclusivos operam-se simultaneamente para produzir resultados espaciais em “pacotes” sociais complexos. Não obstante é analiticamente útil distingui-los.
Os espaços são criados por práticas sociais. Assim não são universais, eles são sempre historicamente específicos. Os espaços tornam-se socialmente importantes quando são constituídos por práticas sociais inumeráveis. Neste ponto definem uma espacialidade material de vida. Todas as espacialidades são produtos de agentes sociais que operam como os fabricantes dos espaços. Há fabricantes dos espaços de lugares que criam mundos de identidades ' locais ', e há fabricantes dos espaços dos fluxos que criam mundos das conexões. Com estas práticas sociais e suas espacialidades, são os dados formais da coexistência entre os espaços dos lugares e os espaços dos fluxos.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em redes. Tradução: Klaus Brandini Gerhrdt. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 2000.


Redes são articulações entre diversas unidades que, através de certas ligações, trocam elementos entre si, fortalecendo-se reciprocamente, e que podem se multiplicar em novas unidades, as quais, por sua vez, fortalecem todo o conjunto na medida em que são fortalecidas por ele, permitindo-lhe expandir-se em novas unidades ou manter-se em equilíbrio sustentável. Cada nódulo da rede representa uma unidade e cada fio um canal por onde essas unidades se articulam através de diversos fluxos (...). MANCE, Euclides André. A Revolução das Redes. São Paulo, Ed. Vozes,2000.


Hipertexto e redes in "As Tecnologias da Inteligência" de Pierre Lévy:
"A fim de preservar as possibilidades de múltiplas interpretações do modelo de hipertexto, propomos caracterizá-lo através de seis princípios abstratos:
Princípio da metamorfose: A rede hipertextual está em constante construção e renegociação. Ela pode permanecer estável durante certo tempo, mas esta estabilidade é em si mesma fruto de um trabalho. Sua extensão, sua composição e seu desenho estão permanentemente em jogo para os atores envolvidos, sejam eles humanos, palavras, imagens, traços de imagens ou de contexto, objetos técnicos, componentes desses objetos etc.
Princípio da heterogeneidade: Os nós e as conexões de uma rede hipertextual são heterogêneos. Na memória serão encontradas imagens, sons, palavras, diversas sensações, modelos etc, e as conexões serão lógicas, afetivas, etc. Na comunicação, as mensagens serão multimídias, multimodais, analógicas, digitais, etc. O processo sociotécnico colocará em jogo pessoas, grupos, artefatos, forças naturais de todos os tamanhos, com todos os tipos de associações que pudermos imaginar entre esses elementos.
Princípio de multiplicidade ou encaixe de escalas: O hipertexto se organiza de modo "fractal ", ou seja, qualquer nó ou conexão, quando analisado, pode revelar-se como sendo composto por toda uma rede, e assim por diante, indefinidamente, ao longo da escala dos graus de precisão. Em algumas circunstancias críticas, há efeitos que podem propagar-se de uma escala a outra: a interpretação de uma vírgula em um texto ( elemento de uma microrrede de documentos ), caso se trate de um tratado internacional, pode repercutir na vida de milhões de pessoas ( na escala da macrorrede social ) .
Princípio de exterioridade: A rede não possui unidade orgânica, nem motor interno. Seu crescimento e sua diminuição, sua composição e sua recomposição permanente dependem de um exterior indeterminado: adição de novos elementos, conexões com outras redes, excitação de elementos terminais ( captadores ), etc. Por exemplo, para a rede semântica de uma pessoa escutando um discurso, a dinâmica dos estados de ativação resulta de uma fonte externa de palavras e imagens. Na constituição da rede sociotécnica intervêm o tempo todo elementos novos que não lhe pertenciam no instante anterior: elétrons, micróbios, raios X, macromoléculas, etc.
Princípio de topologia: Nos hipertextos, tudo funciona por proximidade, por vizinhança. Neles, o curso dos acontecimentos é uma questão de topologia, de caminhos. Não há espaço universal homogêneo onde haja forças de ligação e separação, onde as mensagens poderiam circular livremente. Tudo que se desloca deve utilizar-se da rede hipertextual tal como ela se encontra, ou então será obrigado a modificá-la. A rede não está no espaço, ela é o espaço.
Princípio de mobilidade dos centros: A rede não tem centro, ou melhor, possui permanentemente diversos centros que são como pontas luminosas perpetuamente móveis, saltando de um nó ao outro, trazendo ao redor de si uma ramificação infinita de pequenas raízes, de rizomas, finas linhas brancas esboçando por um instante um mapa qualquer com detalhes delicados, e depois correndo para desenhar mais à frente outras paisagens de sentido."(Lévy, P, 1993, p 25-26) .

Nova gramática espacial no mundo das redes. In. GaWC Research Bulletin 117 (Z) : 'Place as Network' (R.G. Smith).