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Thursday, May 05, 2011

Repare no mundo das linhas que se cruzam e se tecem...

Repare no mundo das linhas que se cruzam e se tecem. Nós pensamos que as linhas são os componentes básicos das coisas e dos eventos. Assim tudo tem sua geografia, sua cartografia, seu diagrama diz Gilles Deleuze. Interessa as linhas que constituem os fluxos da globalização e da cidade. Eu tendo a pensar das coisas como jogos das linhas a desemaranhar mas a ser feitas também para cruzar-se. Eu não gosto de pontos?
As linhas não são coisas que funcionam entre dois pontos; já os pontos estão onde diversas linhas se cruzam. As linhas nunca funcionam uniformemente, e os pontos não são nada, mas inflexão das linhas. Mais geralmente, não são os inícios e as extremidades que contam, mas os intermédios. Deleuze tem interesse no desdobramento, abertura, desvelamento, no labirinto infinito da dobra para dobrar, que produz a topologia do mundo como um do processo que rejeita a ficção dos limites, da fixidez, a permanência, o encaixe, o enclave, o encravamento.
O que é importante, é que todas as dobras são igualmente importantes, não há nenhum mestre e nenhum seguidor, as dobras não podem ser diferenciadas em termos do essencial e o inessential, o necessário e o contingente, ou o estrutural e o ornamental. Cada dobra faz sua parte: cada dobra alarga ' o ' distante. O evento do origami está no desdobrar, apenas como o presente está em envolver: não como o índice, mas como o processo.
O que as dobras nos textos escritos por Deleuze significam para a introdução do parentesco foi feito exame por alguns teóricos como Bruno Latour, e Michel Serres. Observam que o próximo e tornado distante não é uma teoria métrica do espaço (e do tempo) que foi rejeitada a favor de uma teoria topológica em que o espaço-tempo é visto de modo dobrado, enrugado e multi-dimensional.

Abordagem da dobra em Gilles Deleuze 2011_1

De acordo com Michel Serres a dobra (dobrar – plierfrancês- pli) implica (envolve) o volume e começa a construir o lugar. Ainda diz que a dobra que implica e multiplica (dobra sobre si e se desdobra) também permite passar do lugar ao espaço, associando a Michel de Certeau, permite passar do espaço, isto é, da prática do lugar (que implica em posições no espaço, em movimento, fluxo) ao lugar propriamente, que é ordem, convenção, indicando estabilidade, determinando um “próprio”.
“O espaço é um lugar praticado”.
“Assim a rua definida geometricamente pelo planejamento urbano é transformada em um espaço pelos caminhantes” (CERTEAU, 1984, p.117).

Corroborando com esta idéia (aproximadamente), segundo Manuel Castells os espaços são criados por práticas sociais. Assim não são universais, eles são sempre historicamente específicos. Os espaços tornam-se socialmente importantes quando são constituídos por práticas sociais inumeráveis. Neste ponto definem uma espacialidade material de vida. Todas as espacialidades são produtos de agentes sociais que operam como os fabricantes dos espaços. Há fabricantes dos espaços de lugares que criam mundos de identidades ' locais ', e há fabricantes dos espaços dos fluxos que criam mundos das conexões. Com estas práticas sociais e suas espacialidades, são os dados formais da coexistência entre os espaços dos lugares e os espaços dos fluxos.
Uma primeira exploração da dobra em Gilles Deleuze
Deleuze serviu-se da metáfora do labirinto para explicar o conceito de espaço em Leibniz, em seu livro A Dobra. Diz Deleuze, “Leibniz explica em um texto extraordinário: um corpo flexível ou elástico ainda tem partes coerentes que formam uma dobra, de modo que não se separam em partes de partes, mas sim se dividem até o infinito em dobras cada vez menores, que conservam sempre uma coesão.
Assim, o labirinto do contínuo não é uma linha que dissociaria em pontos independentes, como a areia fluida em grãos, mas sim é como um tecido ou uma folha de papel que se divide em dobras até o infinito ou se decompõe em movimentos curvos, cada um dos quais está determinado pelo entorno consistente ou conspirante. Sempre existe uma dobra na dobra, como também uma caverna na caverna.
A unidade da matéria, o menor elemento do labirinto é a dobra, não o ponto, que nunca é uma parte, e sim uma simples extremidade da linha”. 
O espaço ‘leibniziano’ é constituído como um labirinto com um número infinito de dobras, algo similar à cidade composta de quadras, casas, quartos, móveis, dobras dentro de dobras, dobras que conformam espaços, como um origami, a arte da dobradura do papel.
A dobra é a continuidade do avesso e do direito, do verso e reverso da folha, a arte de instaurar esta continuidade entre as superfícies. Deleuze A lógica dos sentidos.
O que está dentro está fora, e o que está fora, logo pode estar dentro.
“Não há lugares fora”Michael Hardt. 
“A superfície, a cortina, o tapete, o casaco, eis onde o cínico e o estóico se instalam e aquilo de que se cercam. O duplo sentido da superfície, a continuidade do avesso e do direito, substituem a altura e a profundidade. Nada atrás da cortina, salvo misturas inomináveis.
“Nada acima do tapete, salvo o céu vazio. O sentido aparece e atua na superfície, pelo menos se soubermos convenientemente, de maneira a formar letras de poeira ou como um vapor sobre o vidro em que o dedo pode escrever”.

DELEUZE, G. A dobra. Papirus 
CASTELLS, M. A Sociedade em redes: Ed. Paz e Terra

Espaço e Lugar em Michel de Certeau em Artes do fazer

Autores como Michel de Certeau distinguem a espacialidade isótropa, unívoca de um espaço existencial, da experiência de relação com o mundo relaciona-se a um meio.
Portanto, do mesmo modo que na dobra de Michel Serres, Michel de Certeau destaca os “relatos” que efetuam o trabalho de transformar lugares em espaços ou espaços em lugares. “Organizam também os jogos de relações mutáveis que uns mantêm com os outros”.
Se espaço carreia a noção de abstração, também de posições em campos de força e a possibilidade de liberdade;
e por outro lado, se lugar tem historicidade, identidade coletiva, pode, ao contrário, por excesso de identidade expulsar candidatos a usuários, excluir, segregar.
Para Certeau o espaço é ato, a prática do lugar enquanto o lugar propriamente é ordem, convenção, indica estabilidade, determina um “próprio”.
 
Topologia
Como descrever a vizinhança?
A topologia desposa o espaço, de outra forma e melhor. Para tal ela usa o fechado (dentro), o aberto (fora), os intervalos (entre), a orientação e a direção (para, à frente, atrás, transversal), a proximidade e a adesão (perto, sobre, contra, a seguir, junto), a imersão (entre, sob), a dimensão e assim sucessivamente, todas as realidades sem medida e com relações.
Outrora designada por Leibniz analysis situs, a topologia, descreve as posições e exprime-se melhor pelas preposições.

Interior-exterior Michel Serres em Atlas- O ser-aí

A vida reside, habita, mora, aloja-se, não consegue passar sem um lugar. Dir-se-ia que ela desenha e codifica a sua definição; entendo desta última palavra aquilo que dela diz sua etimologia: atribuição de limites ou de fronteiras, abertas ou fechadas.
Na questão onde vive? O verbo viver significa habitar. O ser vivo encontra-se aqui ou ai, não num ponto geométrico ou abstrato, não num espaço liso, na topologia de um cubo ou de uma esfera, de uma caixa ou de uma casa, de um saco cujo invólucro lhe fornece algum isolamento privativo, distâncias otimizadas, todas as circunstâncias de uma proximidade.
Rodeada de uma membrana a célula vive menos em si e para si do que em sua casa. Sem membrana não há vida, teorema universal em biologia.
Espaço por multiplicação / Lugar por implicação
A dobra (dobrar – plierfr- pli) implica o volume e começa a construir o lugar.
A dobra que implica e multiplica (dobra sobre si e se desdobra) também permite passar do lugar ao espaço e deste ao canto.
Na “poética do espaço” Gaston de Bachelard fala dos cantos referindo-se a intimidade humana, a sensação de “estar em paz”, a noção de conjunção com o espaço onde está: “Sou o espaço onde estou”.
De acordo com Serres a vida tende ao muito curto “a dimensão local e singular (...) rodeada de limites espaço-temporais, caracteriza-a; não o espaço, mas o compartimento”  .
O ser-aí


SERRES,  Michel. Atlas. Lisboa: Instituto Piaget
BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes,

Thursday, April 21, 2011

1. Eixos organizadores do sentido do espaço

A primeira discussão do curso de estética neste ano tratou da interação e da interatividade entre espaços e saberes ou disciplinas, tendo como foco a arquitetura.
A segunda discussão proposta no Curso de Estética e Arquitetura, em 2011, tem início com as proposições do texto: “Eixos organizadores do sentido do espaço” de Teixeira Coelho Netto.

Objetivo da leitura do espaço criada a partir de eixos organizadores do sentido do espaço segundo o autor:
“Proceder a uma leitura do discurso arquitetural, mas ao invés de se seguir o caminho até aqui trilhado pela semiologia, propõe-se organizar o discurso arquitetural num sistema (eixos) e investigar as referências (significados) livremente, a partir do ponto de vista exigido mais imediatamente pela natureza de casa eixo”.
-A determinação dos eixos foi feita de modo a poder ser considerada a mais ampla possível.
-O modo de resolver estas oposições entre um e outro é de maneira dialética (aproximadamente).

Eixos organizadores do espaço:
1°Eixo do espaço arquitetural: Espaço interior X Espaço exterior
2°Eixo: Espaço privado X Espaço comum
3°Eixo: Espaço construído X Espaço não construído
4°Eixo: Espaço artificial X Espaço natural
5°Eixo: Espaço amplo X Espaço restrito
6°Eixo: Espaço vertical X Espaço horizontal
7°Eixo: Espaço geométrico X Espaço não-geométrico



São vários os objetivos a serem atingidos no curso de 2011 com o conteúdo deste texto:
·         - Iniciar a discussão sobre as problemáticas dos estudos da linguagem da arquitetura – neste contexto as várias definições de arquitetura;
·         - Colocar problemáticas sobre a lógica e a dialética –iniciada pelo próprio autor nas pag. 28 e 29;
·         - Do mesmo modo, estabelecer distinções entre questões de fato, conceito e valor;
- Ainda, evidenciar categorias dêiticas constitutivas/presentes do/no enunciado pessoa, tempo e lugar
·         - Discutir e problematizar os eixos ou pares propostos por Teixeira Coelho Netto;
·         - Especificamente tratar os eixos interior/exterior e privado/comum, e, o eixo natural/artificial
·         - Discutir formas alternativas, propostas por outros autores, de discussão sobre espaço; 
Sobretudo, a noção de dobra no ponto de vista tanto de Gilles Deleuze quanto de Michel Serres

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Referências
TEIXEIRA COELHO NETTO, J. A Construção do Sentido da Arquitetura, São Paulo: Perspectiva, 2009, 5ª Ed.
CHAUI, Marilena.Convite à Filosofia. São Paulo, Ed. Ática, 2000. (unidade 5)