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Thursday, May 05, 2011

"Espaços de comunicação intercultural" de Rico Lie

Excertos do texto de Rico Lie "Espaços de comunicação intercultural" para apresentar o conceito de liminar e liminóide. Este conceito traz aspectos de interação e interatividade que elementos arquitetônicos carreiam como as soleiras e os umbrais, que são espaços de transição por excelência como já foi dito, A função de intertício, de intervalo dw determinados espaços elimina ou produz gradações em relação às divisões territoriais rígidas.


*Excerto do texto  "Espaços de comunicação intercultural" de Rico Lie


"Todas as pessoas estão em certa medida, permanentemente em trânsito... Não tanto ‘de onde vens?’, senão ‘onde estás?’ (The intercultural identity question.)". (CLIFFORD, 1992, p.109)

“O espaço é um lugar praticado”. (De CERTEAU, 1984, p.117)

Esta é uma citação bastante mencionada de de Certeau (publicada originalmente em francês em 1974). A citação prossegue com “Assim a rua definida geometricamente pelo planejamento urbano é transformada em um espaço pelos caminhantes” (De CERTEAU, 1984, p.117). De um modo interpretativo resume a diferença entre espaço (ruimte [em holandês] / espace [em francês]) e lugar (plaats [em holandês] / lieu [em francês]). Ou seja, o espaço é um lugar vivido, assim, através da (inter)ação e a comunicação, os lugares transformam‐se em espaços de comunicação. Segundo De Certeau, os lugares são fixos e estáveis. As fronteiras dos lugares foram fixadas e podem ser determinadas de forma precisa. As fronteiras dos espaços são flexíveis e foram construídas de uma maneira simbólica, interpretativa. (COHEN, 1985) Assim, ‘caminhar pela cidade’ transforma o lugar em espaço. (De CERTEAU, 1984, p.91‐110) Por outro lado, ‘assistir à televisão em casa’ pode, por exemplo, também ser visto como um lugar vivido ou praticado. Este não é somente o caso, porque a casa é um cenário geográfico definido, mas também porque o texto televisivo em si, nas palavras de De Certeau (ibidem, p.117) é “um lugar constituído por um sistema de signos” é transformado em espaço, pelo ato de assistir. Estes espaços de comunicação criados pelos atos de consumo e interpretação podem sergeográficos e físicos, assim como não geográficos e não físicos. (Rico Lie)
 (...)
Com os conceitos de “liminal e liminoid” (de Turner) estou acentuando a posição intermediária dos espaços. Eles estão em um ponto intermediário entre o global e o local, guiando as observações do analista cultural em direção a elementos/formas culturais relevantes nestes espaços específicos. Os espaços são chamados espaços da comunicação intercultural porque o foco está na interação (coexistência, negociação e transformação) entre os elementos/formas culturais. (...). Eles parecem ser os espaços/esferas onde o global e o local devem ser transformados em interação. (Rico Lie)

BHABHA realmente abraça a idéia de espaço intermediário. Bhabha (1994) usa a escada como uma metáfora de liminalidade:
A escada como espaço liminal, entre as designações da identidade, converte‐se em processo de interação simbólica, o tecido conectivo que constrói a diferença entre superior e inferior, preto e branco. O aqui e o
acolá da escada, o movimento temporal e a passagem que ele permite, previnem a identidade de cada um dos seus extremos de instalar‐se como polaridade primordial. Esta passagem intersticial entre identificações fixas abre a possibilidade de uma hibridez cultural que abriga a diferença sem uma hierarquia assumida ou imposta. (BHABHA, 1994, p.4). o reconhecimento teórico do espaço dividido da enunciação pode abrir caminho para conceituar uma cultura internacional, que não está baseada no exotismo do multiculturalismo ou na diversidade de culturas, mas na inscrição e articulação da hibridez de cultura.
Com este fim, deveríamos nos lembrar, que é o prefixo ‘inter’ — o fio da tradução e negociação, o espaço intermediário — que transporta a carga da significação da cultura. (ibidem, p.38). Antes de aprofundarmos a discussão da relação entre “interculturalidade”, comunicação e espaço, vamos primeiro examinar mais minuciosamente a teoria de Turner do "liminal" e o “liminoid”. (Rico Lie)

Que são espaços “liminal e liminoid”?
Em várias disciplinas, a questão da “liminality” foi novamente considerada como conceito de interesse no estudo com culturas em contato e culturas em constantes mudanças. O conceito foi outrora utilizado no estudo mais estrito de rituais, principalmente os rituais da transição, (...). (Rico Lie)

A “liminality” referia‐se à fase intermediária das três fases que Gennep distingue em todos “os ritos de passagem”. As fases são: 1) separação, (2) margem (ou limen, significando 'limiar' em latim) (transição), e, (3) reagregação (reintegração). Especialmente com os ritos de iniciação (transição) (p. ex., iniciação do menino a homem, matrimônio ou morte), essas fases podem ser distinguidas claramente. Na fase da transformação, a pessoa não pertence à sociedade e não é membro da estrutura diária normal. (Rico Lie)

Cada um é localizado em um tempo e espaço que não tem nenhuma definição social. A identidade da pessoa ou grupo é pouco nítida. Uma posição tão “liminal” oferece uma possibilidade de reflexão e crítica, mas também de idealização, igualdade e camaradagem intensa. Este 'estado de ser' ou 'qualidade da relação' é o que Turner (1969) chama “communita”. É na “liminality” que o “communitas emerge. Turner (1974a, p.231) vê a estrutura social como o oposto de “communitas”, já que “communitas” existe fora do tempo estruturado. O autor define “liminality” como “potencialmente eem princípio uma região gratuita e experimental da cultura, uma região onde não só os novos elementos, mas também as novas regras de combinação podem ser introduzidas”. (TURNER, 1982, p.28).
Na liminality, os novos modos de atuar, as novas combinações dos símbolos, são provados, para ser descartados ou aceitos.... A essência do ritual é a multidimencionalidade, multivocalidade" dos seus símbolos (TURNER, 1977, p.40). “... na liminality as pessoas 'jogam' com os elementos do familiar e os desfamiliarizam. (TURNER, 1974b, p.60). (Rico Lie) 

continua (ver restante do texto e referências citadas no link do título)

Espaço e Lugar / interior e exterior

Toma-se a premissa que exterior e interior são dois fundamentos da construção do espaço arquitetônico, que formam “sistemas de lugares”. 
A relação entre exterior e interior é constitutiva do espaço concreto que possui variados graus de extensão e cercamento. Este freqüentemente se manifesta como “figura” em fundo vasto ou limitado Do fechamento ou do enquadramento de um espaço podem emergir elementos que exerçam a função de foco ou centro para o entorno.
O espaço em extensão ou cercado possui direções "cósmicas" ou coordenadas físicas (céu, terra, acima, abaixo, leste-oeste, norte-sul, atrás-adiante) e pode manifestar ritmos segundo a composição ou a disposição de elementos ou os movimentos da topografia. 
“Portanto, centralização, direção e ritmo são importantes propriedades do espaço concreto”. Os próprios elementos naturais podem agrupar-se modo a formar senso de escala, de proximidade ou de distância (NORBERG-SHULZ In Nova Agenda). 
Christian Norberg-Shultz (op. cit.) chama atenção que todas estas propriedades espaciais mencionadas são de natureza topológica. Ou seja, não dizem respeito somente a um enquadramento geométrico ou físico.
O “princípio de vizinhança” está na base da noção de distância, sendo mais profícuo e geral do que os enquadramentos sucessivos e concêntricos aristotélicos, diz Bachelard.
A topologia estuda a posição e as propriedades provenientes dela, que devem satisfazer as noções de vizinhança e de proximidade.
A topologia enfatiza não as propriedades extensivas e estáveis, mas as intensivas e intermitentes. Na teoria topológica, o espaço-tempo é visto como dobrado e multidimensional.
O espaço cercado ou confinado se define por limites (borda) ou fronteiras (onde algo começa a se fazer presente). O chão (piso), a parede (muros, vedações) e o teto (coberturas) são fronteiras de uma edificação ou lugar (NORBERG-SHULZ, op. cit.).
As gradações do confinamento de um espaço são determinadas pelas aberturas ou permeabilidade das vedações.
Para romper com o caráter monolítico ou maciço, as permeabilidades (para luz, ventilação, visualidades) podem ser proporcionadas por membranas “elementos etéreos, que sugerem divisões espaciais, sem limites físicos rígidos” (Bruno Massara Rocha).
As aberturas são a janela, a porta e a soleira. A soleira segundo Hertzberger é a chave para o intervalo, a transição e a conexão entre as áreas.
Na soleira de uma casa se lida com o encontro a reconciliação entre a rua (domínio público) e o domínio privado.
As soleiras e os umbrais, são espaços de transição por excelência. Locais da despedida e das boas vindas. À tradução arquitetônica para hospitalidade (um dever para algumas culturas).
A soleira é tão fundamental para o contato social quanto os maciços são para a privacidade.
O intervalo elimina as divisões territoriais rígidas.

Referências
NORBERG-SCHULZ, Christian. O fenômeno do lugar. In: NESBITT, Kate (org.). Uma nova agenda para a. arquitetura: antologia teórica 1965-1995. São Paulo: Cosac Naify, 2006
HERTZBERGER, Herman. Lições de Arquitetura. São Paulo: Martins Fontes,

 

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Wednesday, March 02, 2011

Arquitetura: ação, interação e interatividade

O Dicionário Digital Aurélio enuncia que interação é um substantivo que advém de [inter + ação.]. Designa ação que se exerce mutuamente entre duas ou mais coisas, ou duas ou mais pessoas; ação recíproca; (...). Como o radical ação se destaca no termo, vamos abordá-lo primeiro. O verbete ação no dicionário Metápolis, escrito por Manuel Gausa, relaciona ação à arquitetura e assinala que ação é o efeito de expressar, operar, executar e fazer. Requer energia, decisão e capacidade. Quer dizer, disposição. Segundo Manuel Gausa:
“Interessa hoje uma “arquitetura-ação”, definida desde uma vontade “atuante”, de (inter)atuar. Quer dizer, de ativar, de gerar, de produzir, de expressar, de mover, de intercambiar e de relacionar. De agitar acontecimentos, espaços e conceitos e inércias, propiciando interações entre as coisas mas que intervenções nelas mesmas. Movimentos mais que posições. Ações, pois, mais que figurações. Processos mais do que sucessos.”
A ação é apontada por Manuel Gausa como o meio de entender o espaço construído como realidade e o melhor modo de afetá-la. É a possibilidade de materialização direta. Implica na “desmesura” do corpo trabalhando e correndo entre coisas, nos edifícios e na paisagem. Isso distingue, além disso, a qualidade pré-espacial das arquiteturas. Gausa ainda discute as posturas da ação (operação) e da contemplação. Esta definida como uma atitude reflexiva (que se mantém a distância de seu objeto). Afirma que o mundo contemporâneo é decididamente midiático e interativo. “A interação abarca tudo, desde as sensações aos objetos”.
No dicionário Metápolis, o verbete interação também é escrito por Manuel Gausa. “interação é (inter)câmbio e (inter)relação. Informação transmitida, transferida e transformada entre energias, acontecimentos e/ou cenários diversos e simultâneos”.
Vicente Guallard diz sobre interatividade. “Se os objetos pensam, reagem e atuam, além de suas qualidades materiais, os espaços e os lugares devem [responder] relacionar-se com eles. Os objetos pensam porque alguém pensou neles. Programou-os e lhes atribuiu qualidades para que se integrem em uma nova lógica do mundo em que tudo está conectado com tudo”.
Para Guallard o meio atmosférico-climático tradicional será superposto pelo meio digital. E isso deve abalar profundamente as relações espaço-temporais planetárias. Segundo ele será insuflada inteligência aos edifícios, aos espaços públicos, as cidades, mediante códigos precisos que proporcionem a relação entre os espaços, os objetos e as pessoas, e ainda possibilitem o conhecimento mútuo entre eles assim como suas diferenças.
Há um excerto (publicado em 1967) do músico John Cage que contém um bom insight sobre a interação entre pessoas, coisas e outros seres, e indica uma possível conseqüência acerca da possibilidade da mudança da mente.
“Ele era um físico e um compositor-de-computador nas horas vagas. Por que era tão estúpido? Porque era de opinião que a única coisa que pode engajar o intelecto era a medição entre as coisas? Quando alertado para o fato de que sua mente podia mudar, sua resposta foi  “Como? Por que?”
“o conflito não estará entre pessoas e pessoas mas entre pessoas e coisas. Neste conflito vamos tentar regular as coisas de forma que o resultado, como em filosofia nunca seja decisivo. Trate os pinheiros, por exemplo, como entidades que têm ao menos uma chance de vencer”.
Para que isso aconteça é preciso a mudança paradigmática da ciência, para um viés mais compreensivo do que analítico. Compreender inverte a abordagem positivista, pois em vez de analisar, dissecar e apartar, acolhe metodologicamente os verbos abarcar e abranger.
Porém, o que pode dar a verdadeira chance aos pinheiros sugerida por Cage, advém de uma mudança no estatuto do tratamento da natureza pela ciência ou pela economia “determinista” antropocêntrica. Isso adverte que concepção de um homem fechado em si, numa situação que aparta natureza e cultura”deverá ceder lugar a integração do homem na natureza levando à abolição do “antropocentrismo”.
Por outro lado, as novas tecnologias da informação e da comunicação consolidam novas atividades imateriais. As NTIC impõem uma radical transformação das formas de produção e consumo (que se torna produtivo) num mundo cada vez mais desenhado por um “emaranhado de redes e redes”. As novas tecnologias jogam com a interação entre as possibilidades oferecidas pelo sistema e a integração criativa do usuário.
A base operacional do sistema (o hardware e o software) complementa-se e interage produtivamente com a netware e o wetware (uso, consumo). Neste processo de produção e circulação de informação e de produtos, as referências tradicionais materiais do valor se perdem e a ênfase na cognição cresce. O saber se manifesta como força produtiva nas economias contemporâneas. As redes provocam novas formas de cooperação entre sujeitos, atualizando a virtualidade produtiva constituída pela sociedade (COCCO & SILVA & GALVÃO, 2003).
Pierre Lévy observa que com a tecnologia digital verifica-se a ampliação da consciência. O pensamento deixa de ser uma experiência predominantemente interna, e passa a interagir com o sistema operacional dos computadores e com as redes. Por isso, multiplicam-se as redes de relacionamento entre pessoas. As novas tecnologias da informação e da comunicação multiplicam também as possibilidades oferecidas pelo sistema para a integração criativa do usuário (LÉVY, 1993). Com as novas possibilidades da informática, o pensamento assume a condição de mapeamento, que ajuda a simplificar (sintetizar) a realidade, a diagramá-la e modelá-la.
A publicação Verb Connection discorre sobre a condição mutante da cidade, da arquitetura e do urbanismo. A geração de atividade, que vincula fisicamente programas, pessoas e usos. Então serão colocados como exemplos sobre projetos de conexão, interação e comunicação:
·         OMA_ Biblioteca pública de Seattle, 2004.
·         A biblioteca pública de Seattle é uma afirmação potente sobre seu papel fundamental como o primeiro, e talvez único, edifício autenticamente público. Desde sua inauguração em maio de 2004, tem causado um grande impacto na cidade e seus arredores, como catalizador urbano que ativa e redefine seu contexto no centro da cidade, e como protótipo arquitetônico cujas inovações estruturais e programáticas oferecem novas possibilidades para criar um espaço público. OMA + LMN.
·         SHINOBU HASHIMOTO, RIENTS DIJSKTRA_ Chip City , 2000.
·         Propõe imaginar uma cidade sem placas publicitárias, semáforos, anúncios ou barreiras arquitetônicas. Com um sistema GPS aderido ao corpo, navegamos pela cidade livremente, de uma maneira fácil e eficiente. Mediante a tecnologia de posicionamento global (PosTec), o sistema GPS se integra à qualquer atividade humana, e se converte no catalizador que desencadeia a transformação do entorno urbano.
·         MICHELLE PROVOOST, WOUTER WANSTIPHOUT_ WiMBY! , Hoogvliet – Rotterdam, 2004.
·         A antiga cidade de Hoogvliet experimenta, nos últimos trinta anos, a decadência e abandono de seus habitantes. Para revitalizá-la, é proposto o WiMBY!, sigla para Welcome to my backyard ( “Bem-vindo ao meu quintal”), uma construção de caráter expositivo e internacional. São estudadas questões características da população,  e pensadas alternativas coletivas que integrem os habitantes da cidade. Para propor os módulos parasitas, a equipe estudou o programa das escolas, suas tipologias, e percebeu uma deficiência em espaço físico para salas de música e dança, refeitórios, lugares para em horários extracurriculares, entre outros. A solução foram módulos de baixo valor - os parasitas - externos aos prédios escolares já existentes, com plantas multiuso, em sintonia com as questões existentes levantadas pela população.


Referências:
CAGE, John. De Segunda a um Ano. São Paulo: HUCITEC, 1985
COCCO, Giusepe et all (orgs). Capitalismo Cognitivo, trabalho, redes e inovação. Rio de Janeiro, DP&A, 2003.
GAUSA, Manuel, GUALLART, Vicente & MÜLLER, Willy et al. (orgs.). Diccionario Metápolis de arquitectura avanzada. Ciudad y tecnologia en la sociedad de la información. Barcelona: Actar, 2000.
GAUSA, Manuel, GUALLART, Vicente & MÜLLER, Willy. Barcelona Metápolis. Festival de idéias para la futura multiciudad. Barcelona: Actar, 1998.
LÉVY, PIERRE. As Tecnologias da Inteligência - O Futuro do Pensamento na Era da Informática. São Paulo: Editora 34, 1993.
LÉVY. Pierre. A Inteligência Coletiva. São Paulo: Loyola, 20003.
Verb Connection, Actar, Barcelona, 2004. ( Terceiro volume da série Boogazine Architecture da Editora Actar)